terça-feira, 28 de maio de 2013

Daniel Walker: Guardião da memória do Padre Cícero e de Juazeiro

Professor, escritor e jornalista, Daniel Walker há mais de 40 anos se dedica a pesquisar e a difundir a história do Padre Cícero, de Juazeiro do Norte e de seus personagens. Trabalho incansável, feito de forma independente e diletante, “mas com muito prazer”. Autor de cerca de 50 obras, muitas delas sobre a vida e obra do patriarca da Meca do Cariri, Daniel Walker é a principal referência na cidade para pesquisadores, jornalistas e interessados, e exemplo da luta pela preservação da memória do Cariri

Um dos episódios mais marcantes da vida de Daniel Walker Almeida Marques – a cirurgia para extração de um rim que doou a um irmão, em São Paulo – foi também decisivo para o rumo da sua vida dali em diante. O ano era 1969, e ainda hospitalizado em recuperação do procedimento cirúrgico, ele recebeu mais de 10 edições de jornais do Sudeste. Em comum a todas as capas, a inauguração da estátua em homenagem ao Padre Cícero, na colina do Horto. “O assunto foi destaque em jornais como O Estado de São Paulo, Última Hora, Folha de São Paulo, Jornal O Globo e Jornal do Brasil. As reportagens, bem positivas, enfocavam sempre o padre como um santo nordestino, e diziam que o local iria se transformar numa grande atração turística. Retornei a Juazeiro bastante empolgado, e passei a pesquisar tudo sobre o tema”, lembra.
Mas Juazeiro e sua vocação já chamavam a atenção de Daniel Walker desde a infância. Nascido próximo à Capela do Perpétuo Socorro, que abriga os restos mortais do Padre Cícero, ele vivenciou a religiosidade de maneira muito forte. “Quando criança, eu via Juazeiro como uma cidade sagrada. Como morávamos no bairro do Socorro, minha ambiência sempre foi em meio aos romeiros, que durante as romarias carregavam aquelas imagens e objetos sagrados”, afirma. Mas sua admiração não se resumia só ao visual. Assim como outros meninos da sua idade, aos sete anos pendurava uma caixa de sapatos com um cordão no pescoço e vendia velas aos que peregrinavam à cidade em busca de conforto espiritual.
Nascido a 6 de setembro de 1947, Daniel Walker é o terceiro da prole de cinco filhos do ourives José Marques da Silva (Zeca Marques) com a professora Maria Almeida Marques, ambos de Juazeiro do Norte. A profissão do pai de Daniel também tinha ligação com a religiosidade. Segundo ele, a cidade, que chegou a ter mais de 500 ourivesarias foi, durante o apogeu nos anos 1960, o maior centro nordestino no ramo, e se notabilizou por fabricar também em ouro artigos como escapulários, medalhas e crucifixos, além dos anéis de formatura, alianças, pulseiras, brincos e cordões. “O ouro enricou muita gente em Juazeiro. Só não ao meu pai, que não foi ousado. A produção era vendida da Bahia ao Pará”, acrescenta. 
A infância de Daniel Walker foi marcada pelos banhos no rio Salgadinho, os jogos de peteca e futebol na praça onde hoje está o Memorial do Padre Cícero, no bairro do Socorro. No auge dos filmes de faroeste que passavam nos cines Eldorado, Avenida e Roulien, a moda era brincar de caubói. As primeiras letras Daniel aprendeu com dona Toinha Gonçalves, uma rígida professora a quem recorriam até as famílias mais abastadas, quando seus filhos se viam em apuros com o boletim. “Ela era do tempo da palmatória. A gente tinha costume de levar bolo, quando cometia indisciplina ou falhava na sabatina, em que um aluno era designado para fazer perguntas a outro. Não tinha jeito”. Porém, a maior recordação do tempo em que tinha aulas na escola que funcionava na própria residência da professora foi a sólida e abrangente formação humanística, que incluía, entre outras, noções higiene, cidadania, religião e comportamento. 
Da escola de Toinha Gonçalves, Daniel ingressou no Grupo Rural Modelo (Escola de Aplicação da Escola Normal Rural) e no Grupo Escolar Paulo Sarasate, todos de Juazeiro do Norte. Em 1960, início do ginásio, foi para o Colégio Agrícola de Lavras da Mangabeira em regime de internato, onde fez o 1º Ano do Curso de Iniciação Agrícola. A experiência foi breve. “Foi de muito choro com saudade de casa. Fiz só o primeiro ano”.
De volta a Juazeiro, Daniel Walker passou o que classifica como os melhores momentos da vida estudantil no Colégio Salesiano São João Bosco, entre 1961 e 1964. Aluno sempre destacado, foi lá que ele despertou para a que considera sua principal vocação: a de comunicador. “Iniciei minhas atividades de radialista e jornalista, fazendo locução, redigindo e apresentando noticiário no Serviço de Auto-Divulgação Salesiana [SADS], uma amplificadora que funcionava no colégio Salesiano como sendo uma emissora de rádio”, explica. A amplificadora foi fundada em 1964 com os amigos Vital Tavares, Wellington Amorim, José Marques Filho, Jussier Cunha e Renato Casimiro, ajudando a revelar também outros nomes para o rádio de Juazeiro. Nessa época, ele conseguiu as primeiras façanhas na atividade: emplacar uma matéria no Jornal Juvenil, e uma nota na seção “O Impossível Acontece” da Revista O Cuzeiro. “Narrava o fato real de homem que tentou o suicídio pulando da torre da Capela do Socorro, caindo em cima de outro homem que passava na frente da capela, matando-o. Os dois morreram na hora”, conta. Também no serviço militar para o qual entrou em 1966 como atirador do Tiro de Guerra 210, Daniel Walker exerceu o radiojornalismo.
O gosto de Daniel pelo rádio foi crescente. Àquela altura, já era ouvinte da BBC de Londres e das emissoras dos Diários Associados, além da Ceará Rádio Clube, de Fortaleza, onde passou a admirar nomes como Narcélio Limaverde, João Ramos e Wilson Machado. Sua profissionalização na atividade veio a partir de 1964, quando passou a atuar como locutor e redator no Serviço de Alto-falantes Cicerópolis (Saci).
Pouco tempo depois, Daniel foi convidado por Coelho Alves para trabalhar na Rádio Iracema, onde permaneceu de 1965 a 1971. “Minha maior glória foi ter redigido e apresentado, com Coelho Alves, o Grande Jornal Sonoro Iracema”. O noticiário ia ao ar à noite, às 22 horas, e Daniel redigia notícias sobre os fatos ocorridos na cidade. Uma das curiosidades daquele tempo é que, como não havia gravador, para poder entrevistar e redigir, ele teve de dominar a técnica da taquigrafia. 
Nesse ínterim, em 1965 e 1966 Daniel Walker foi aluno do Colégio Diocesano do Crato, onde cursou o 1º e 2º ano científicos. Como em Juazeiro não havia universidade, tentou o vestibular depois de concluir o segundo grau no Colégio Castelo Branco, de Fortaleza, onde fez ainda o cursinho pré-vestibular. Reprovado no vestibular para Agronomia da Universidade Federal do Ceará, Daniel retornou a Juazeiro e foi aprovado no vestibular de Fisioterapia na Faculdade de Medicina em Recife, curso que frequentou apenas o primeiro semestre.
Paralelo ao trabalho no rádio, atuou como correspondente do Jornal O Povo, integrou a diretoria do Centro Estudantal Juazeirense (CEJ), foi redator-chefe do jornal Tribuna de Juazeiro, fundado por Aldemir Sobreira, e colaborou nos jornais Folha de Juazeiro, A Imprensa, Folha de Juazeiro, Jornal do Cariri, Tribuna do Ceará, Tribuna do Cariri e Correios Estudantil, entre outros. 
Depois de voltar de São Paulo, Daniel começou a se dedicar também à pesquisa sobre a história do Padre Cícero e de Juazeiro do Norte. “Me juntei a Renato, José Carlos Pimentel, Padre Murilo e José Onofre, quando fizemos a primeira exposição no edifício Dom Pires, em Juazeiro, de 250 fotografias históricas de Juazeiro e do Pe. Cícero. Essas fotos hoje estão no Memorial”, recorda. A partir daí, Daniel e Renato passaram a engordar o acervo de documentos. “Nos empolgamos e começamos a trabalhar o garimpo das fontes, e assim conseguimos ajuda de muitos colaboradores. Ajudamos muitos pesquisadores”, rememora.
Em 1971, Daniel Walker foi aprovado em primeiro lugar no vestibular para o Curso de História Natural da Faculdade de Filosofia do Crato, graduação que concluiu a Licenciatura em 1974. Pós-graduou-se Especialista em Ciências (UFC), em Sexologia (Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro) e em História do Brasil (Universidade Cândido Mendes). No mesmo ano, iniciou a carreira de professor de Ciências no Curso de Madureza do Colégio Estadual de Juazeiro do Norte, posteriormente batizado de Centro Educacional Professor Moreira de Sousa. No colégio, ensinou turmas do Ensino Fundamental, do Curso Científico, do Curso Normal Pedagógico e do Quarto Pedagógico, até se afastar para aposentadoria em 2004. Daniel lecionou ainda na Escola Técnica de Comércio, no Colégio Menezes Pimentel, na Escola de 2º Grau Governador Adauto Bezerra e no Cursinho Pré-vestibular Objetivo. Em 1982 ingressou no quadro de professores da Faculdade de Filosofia do Crato, hoje Universidade Regional do Cariri (Urca), permanecendo no Curso de Biologia, até 2001, quando se aposentou como professor adjunto, no topo da carreira, inclusive com o título de Professor Emérito.
Ao lado de Bendimar de Lima, José Boaventura, Renato Casimiro e Renato Dantas, Daniel Walker fundou o Instituto José Marrocos de Pesquisas e Estudos Sócio-Culturais (Ipesc), na mesma época da criação da Urca. No instituto, foi nomeado pelo reitor José Teodoro Soares coordenador de pesquisa e editoração. De acordo com Daniel, o instituto, criado para fomentar a pesquisa e a divulgação da história e da cultura caririenses, logrou êxito em sua missão apenas durante o reitorado de Teodoro à frente da Urca. “Conseguimos o entrosamento dos pesquisadores de fora com Juazeiro, e instituto incentivou nomes importantes em suas pesquisas, entre eles Gilmar de Carvalho, Régis Lopes, Osvaldo Barroso, Diatahy Bezerra de Menezes, Olga Paiva, Martine Kunz, Luitgarde Oliveira e Marcelo Camurça”, cita.
Em 1984, o sonho de ser proprietário de uma emissora de rádio veio com a criação da Transcariri FM, ao lado de Coelho Alves, Cícero Antônio, Francisco Silva Lima e Adauto Bezerra Junior. “A gente sempre ficou admirado de Cajazeiras (PB) ter uma FM (Patamuté) e Juazeiro não. Decidimos concorremos em um edital e ganhamos a concessão. “O negócio não dava lucro, mas não devíamos a ninguém”, afirma ele, que era também responsável pelas finanças da emissora, a qual deixou para se dedicar à universidade.
A experiência no Ipesc deu a Daniel Walker a possibilidade de ampliar seu trabalho de pesquisa e produção intelectual iniciada no final dos anos 1960. “Disso resultou a publicação de vários livros. Participei de muitos simpósios, congressos e encontros, alguns dos quais como palestrante ou membro da comissão organizadora. Fiz dezenas de cursos de extensão cultural e ministrei vários cursos abrangendo as áreas da Biologia, História Regional e Turismo”, orgulha-se. Entre suas principais obras, estão Padre Cícero: A sabedoria do conselheiro do sertão, em que foi pioneiro na catalogação dos conselhos do Padre Cícero, até então dispersos em publicações, História da Independência de Juazeiro do Norte, O Pensamento vivo de Padre Cícero e Padre Cícero na Berlinda. Seu primeiro livro, História da CCPM, foi lançado em 1966, e conta a história da Cooperativa de Crédito dos Primos Marques, uma espécie de banco para emprestar dinheiro aos primos da Família Marques. “Foi um grande sucesso. A Cooperativa depois se expandiu e passou a oferecer empréstimos a pessoas do Bairro do Socorro, não pertencentes à Família Marques”, explica.
Na era da internet, Daniel foi o criador do primeiro jornal eletrônico de Juazeiro, o Juazeiro Online, fundado em 2004. Depois de completar 250 edições, o jornal virou o Portal de Juazeiro (http://www.portaldejuazeiro.com), até hoje um dos mais importantes sites noticiosos da cidade. Além do magistério e do rádio, ele ainda trabalhou de 1971 a 1974 como relações públicas da Companhia de Eletricidade do Cariri (Celca, depois Coelce); como gerente da Credimus S.A. Crédito Imobiliário, além de acumular experiências desagradáveis no serviço público municipal em 2000 e 2009. “Foi a pior experiência de minha vida”, resume. Casado com a Professora Tereza Neuma de Macedo e Silva Marques, Daniel é pai do professor universitário Michel, e do engenheiro de produção Daniel Walker Junior.
A dedicação ao Padre Cícero por parte de Daniel Walker vem da gratidão pelo que o sacerdote fez pela cidade. “Acredito que foi ele quem colocou Juazeiro no mapa do Brasil. Se não fosse ele, seria um reles povoado que talvez viesse a virar uma cidade, mas nunca igual a que é hoje. O tenho na conta de uma figura carismática muito forte, por conta dos romeiros. O Padre Cícero é o ímã que atrai gente que faz o desenvolvimento de Juazeiro. Sou um admirador e estudioso de sua história”, pontua. Diariamente, Daniel Walker se dedica ao trabalho de pesquisa e orientação a pesquisadores de todo o Brasil, que vão pessoalmente à sua casa ou enviam e-mails, prontamente respondidos. “É um trabalho não remunerado, por diletantismo, mas que faço com muito prazer”. 


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SOBRE DANIEL WALKER

“Daniel Walker é um homem exemplar. Discreto, aparentemente tímido, nada falastrão, se desmancha em atenções e generosidade com quem pesquisa o universo do Juazeiro do Norte. Minhas buscas, que começaram, mais sistematicamente, em 1986, devem muito a ele. Solícito, prestativo, perdi a conta das vezes que me levou para visitar um artista, um penitente, um brincante de folguedo, alguém que pudesse ser interessante para a minha compreensão daquele mundo, tão fascinante quanto desafiador. Relembro, com saudades, das tardes de sábado, quando ia me apanhar no Hotel Viana para o café na casa do Monsenhor Murilo. Tantas conversas sobre a cidade, seus anseios, suas frustrações e suas personagens... Daniel Walker é um amigo querido, um pesquisador sério e um homem comprometido, de verdade, com o Juazeiro do Norte. Tenho muito respeito e muito carinho por ele. Grande Daniel!!!”, 
Gilmar de Carvalho, professor, pesquisador e escritor

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“Daniel Walker é um amigo que cultivo há mais de 50 anos. Costumo me referir a ele, não como um amigo, simplesmente, mas como um irmão muito estimado. São qualidades de grande relevância na sua pessoa a solidariedade, a sinceridade, e uma profunda honestidade em todos os seus propósitos e iniciativas. Educador de grandes méritos, tenho por ele uma imensa admiração, pela coerência de suas atitudes, pela organização de seu trabalho, por seus métodos e pela fidelidade aos seus princípios éticos e morais, dos quais não faz concessões. É admirável e exemplar o seu amor ao Juazeiro, o zelo e a dedicação incansável para exaltá-lo e divulgá-lo em tantas e distintas formas, por longos anos. Neste sentido, construiu uma obra literária que serve da forma mais desprendida possível à construção de uma nova imagem de sua cidade. Homem de grande humanismo no exercício profissional e cidadão, é admirado por todos os seus amigos com um exemplo irretocável de personalidade. Por isso mesmo, para mim, em meio século de amizade, sua existência e o convívio entre nossas famílias são motivos de grande júbilo, e eu procuro celebrar isto como uma grande graça e uma grande dádiva”, Renato Casimiro, professor, pesquisador.     

segunda-feira, 27 de maio de 2013

MEMÓRIA DO CARIRI: Juazeiro do Norte perde dois ícones da história do município

26.05.2013
Mulheres tinham identificação com a arte e a religiosidade manifestadas no polo de romarias do Cariri
Óleo sobre tela mostra os primeiros momentos da formação de Juazeiro do Norte, quando Padre Cícero profetizou o crescimento da cidade na região. A pintura era uma das características de dona Assunção, que faleceu aos 97 anos Fotos: Elizângela Santos

Juazeiro do Norte. A história deste município perde dois grandes nomes, durante o último fim de semana. Com 78 anos, morreu a irmã Therezinha Stella Guimarães, doutora em Psicologia da Religião e membro da Pastoral da Romaria, e dona Maria Assunção Gonçalves, educadora e artista plástica, contemporânea do Padre Cícero e uma de suas últimas afilhadas ainda vivas, uma das responsáveis por reacender o legado histórico do sacerdote. Ela estava prestes a completar, em 1º de junho, 97 anos. A cidade ficou de luto para se despedir de duas mulheres que deixaram uma relevante contribuição relacionada à religiosidade, resgate histórico, educação e evangelização, junto aos romeiros que chegam à cidade.

As mudanças rápidas do município, nos últimos anos, não era algo que agradava Assunção, a mulher que conseguiu resgatar, por meio de sua arte, os primeiros momentos em que se desenhava a história. Uma capela e três árvores de juazeiro, características principais da pequena Tabuleiro Grande.

Ela obteve de moradores mais antigos e sua família o testemunho de como era a pequena vila, em seu princípio. E foi traçando o que hoje desconhecia como a grande cidade. Em sua casa, ela preservava muito de um passado, que se foi junto com tantos nomes que puderam testemunhar o crescimento do que era previsto, em relação ao Juazeiro, pelo Padre Cícero.

Dona Assunção era uma devota da Mãe das Dores e conviveu com o Padre Cícero Romão Batista. Nos últimos anos, não gostava mais de dar entrevistas para falar da história local. A memória não ajudava, e tanto esforço a deixava aflita. Tinha na vaga lembrança momentos da história de uma cidade que iniciava o seu povoamento.

Memória
A memória dos antepassados estava sempre a povoar a mente de mais de nove décadas e que renderam homenagens e reconhecimentos, pela sua contribuição, principalmente no setor educacional. A pequena vila que nasce sob as orações de Nossa Senhora das Dores se torna um dos maiores centros de religiosidade do País. A imagem da santa que veio de Portugal é mantida na casa paroquial. Mas, dona Assunção guardava a foto da imagem barroca, estilo bizantino, com carinho. Foram 10 anos de convivência com o Padre Cícero.

A única remanescente foi testemunha do trabalho do sacerdote, também devoto da santa. Padre Cícero contribuiu para disseminar a devoção à Nossa Senhora das Dores, por todo o Nordeste brasileiro.

Dona Assunção foi desenganada ao nascer. Todos pensavam que não iria escapar. O batismo foi feito pelo Padre Cícero. Ela considerava o sacerdote um visionário. Previa os lugares de cada coisa. Da pequena viela o padre já falava numa cidade sem tamanho, que iria crescer de uma forma inimaginável. Uma das coisas que o "Padim" falou era de que numa das áreas da cidade existiriam vários cemitérios. "Isso hoje é uma realidade", dizia a educadora. Em um dos bairros distantes de Juazeiro existem quatro deles, além do cemitério do Socorro, vizinho à capela onde estão depositados os restos mortais do sacerdote.

Eram as lembranças dos últimos anos, perdidas no pensamento. Dona Assunção fazia um esforço, mas se alegrava sempre em poder vivenciar a confirmação do que o Padre Cícero falava. Houve momento de uma dedicação maior pelos registros em suas telas da história de Juazeiro. Dos homens simples, dos romeiros. Para produzir os quadros que faziam referência ao passado, sempre recorria à memória de sua mãe e da avó. Mas, os mínimos detalhes vinham na ponta dos pincéis. Desde bancos de frente à casa alpendrada do brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro aos momentos de alegria dos moradores, vivenciadas na localidade.

Responsável
E foi o brigadeiro, o responsável pela aquisição da imagem de Nossa Senhora das Dores, em Lisboa, Portugal. Padre Cícero ao chegar em Juazeiro do Norte, em 1877, já encontrou a capela com a imagem. A atual igreja teve sua pedra fundamental lançada em 15 de setembro de 1925. Daí nasceu a devoção.

A capela foi feita com a finalidade do neto do brigadeiro, padre Pedro Ribeiro Gonçalves Bezerra de Menezes, celebrar missas na vila.

Nos momentos de maior aflição, dona Assunção buscava na Mãe das Dores o refúgio. Descente do brigadeiro, tem no sangue a devoção de família. Sempre lembrava da dedicação do monsenhor Murilo de Sá Barreto, momento em que houve um crescimento da igreja, com a Basílica. Ele dedicou 48 anos ao trabalho missionário em Juazeiro, à frente da Matriz.

Numa das ocasiões em que dona Assunção estava na igreja, no ano de 1965, ouviu um sonoro "viva o Padre Cícero", do padre Murilo. Chegou a ficar aflita, achando que ele seria expulso da igreja por aquela atitude se o bispo tomasse conhecimento. Ao conversar, ele afirmou que não faria aquilo sem antes avisar ao bispo. Foram gritos de resistência dentro da própria igreja. Atitudes que se manifestam hoje na expansão da fé romeira. Testemunhados por uma das mulheres que marca a história da cidade, deixando a única imagem que remete ao início da formação da terra do Padre Cícero.

Famílias
Para o escritor e jornalista, Daniel Walker, com a morte da artista plástica, o Juazeiro tradicional, aquele do Padre Cícero, de monsenhor Murilo de Sá Barreto, dos romeiros, da Escola Normal, do Ginásio Municipal Dr. Antônio Xavier de Oliveira e das famílias tradicionais que a conheciam e a respeitavam está de luto, pelo nível de importância da educadora e artista. "Assunção conviveu com o Padre Cícero em sua fase de adolescente e dele guardou muitas recordações", disse. Para ele, Assunção será lembrada por conta da sua extensa biografia, como educadora, artista plástica, mestre na arte de confeitos de bolo e ornamentação de noivas.

Também houve o dia em que a mulher que perfumou o Padre Cícero saiu às ruas, para jogar a água de colônia em sua nova batina. Foi no dia da inauguração da imagem do Padre Cícero, na praça que leva o nome do "Padim" Cícero, pelo próprio. Para ela, era a mais perfeita de todas e a que realmente parecia com o sacerdote.

Lembranças
10 dos 97 anos de vida de dona Assunção foram passados ao lado do Padre Cícero. A artista plástica e educadora ainda guardava lembranças felizes do sacerdote.


Irmã Ana exerceu vocação religiosa

Juazeiro do Norte. A prima do Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, morou por mais de quase quatro décadas na terra do Padre Cícero, onde desenvolveu um trabalho voltado para a pastoral das romarias e junto ao projeto ´O Semeador´, com a irmã Annette Dumoulin. Esteve acompanhando nesses últimos anos, a dinâmica da religiosidade numa terra que adotou como sua casa, até morrer. Irmã Therezinha Stella Guimarães, durante a comemoração do centenário da cidade de Juazeiro do Norte, em 2011, lançou o livro "Padre Cícero e a Nação Romeira", fruto de uma pesquisa para o seu doutoramento, na Universidade de Louvain, na Bélgica.

Irmã Ana Teresa chegou ao Juazeiro do Norte na década de 1970, como missionária católica e observadora religiosa e acabou morando por 40 anos

A pesquisa, que retratava um estudo psicológico da função de um ´santo´ no catolicismo popular, como diz o subtema do trabalho, foi apresentado em 1983. Ela fez a apresentação de trabalhos importantes, lançados durante o centenário da cidade. De acordo com o pesquisador, Daniel Walker, ela foi diretora da congregação Cônegas de Santo Agostinho, em Juazeiro do Norte. "Irmã Ana Teresa ou ainda Irmã Teresinha, como era conhecida por todos, tem uma larga folha de bons serviços prestados a esta cidade, como religiosa e como pesquisadora da vida do Padre Cícero e estudiosa das romarias, sobre quem publicou vários trabalhos", afirma.

Ela esteve integrando a comissão, que foi a Roma, em 2006, entregar o pedido de reabilitação do Padre Cícero. O trabalho de pesquisa que desenvolveu, conforme o jornalista, teve uma larga repercussão junto aos meios acadêmicos.

Chegou ao Juazeiro do Norte, lembra ele, na década de 1970, como observadora anônima, juntamente com sua colega de congregação, irmã Annette Dumoulin, para conhecer o fenômeno religioso envolvendo Padre Cícero e as romarias.

"Ficou tão fascinada com o que viu que decidiu, juntamente com a irmã Annette, morar na cidade". Nesse período, foi fundada a Congregação das Cônegas de Santo Agostinho.

De acordo com Walker, elas receberam do então padre Murilo, vigário da Matriz de Nossa Senhora das Dores, todo o apoio necessário para o desenvolvimento das atividades religiosas, sendo imediatamente engajada na pastoral das romarias.


ELIZÂNGELA SANTOS
REPÓRTER DN - Regional

sábado, 4 de agosto de 2012

JUAZEIRO PERDE IMPORTANTE POETA POPULAR - Daniel Walker


A Literatura de Cordel Juazeirense perdeu no dia 8 de agosto de 1997 um dos seus mais legítimos e talentosos representantes: o poeta popular Expedito Sebastião da Silva, que faleceu vitimado por problemas cardíacos, aos 69 anos de idade.
Ele dedicou a maior parte de sua vida ao ofício e à arte de fazer cordéis, pois sempre aliou as duas funções: a de compositor tipográfico e de autor de cordel.
Expedito Sebastião nasceu em Juazeiro do Norte, de onde nunca se afastou, e sua escolaridade não passou do antigo curso ginasial, feito no Ginásio Salesiano São João Bosco. Viveu até os dezessete anos no campo, ajudando o pai no pequeno roçado da família. Seu ingresso na Literatura de Cordel se deu por intermédio do mestre Antônio Caetano que mostrou alguns sonetos do jovem poeta em formação ao consagrado José Bernardo da Silva, dono da Tipografia São Francisco, a famosa editora de cordel de Juazeiro, hoje ainda existente, mas com a denominação de Lira Nordestina e amargurando dias de penúria.
José Bernardo ao ler os versos de expedito Sebastião percebeu imediatamente que estava diante de um poeta de futuro brilhante, razão por que o convidou para trabalhar em sua tipografia.
Desde então a vida de Expedito Sebastião ficou intrinsecamente ligada àquela editora de cordel, onde aprendeu todas as etapas do processo de impressão dos folhetos até chegar ao topo da função de chefia, um merecido prêmio ao seu trabalho eficiente e abnegado.
Lamentavelmente um grande desejo seu não pôde ser concretizado: ver a Lira Nordestina voltar a ser a grande editora de cordel que fora no passado, com sua sede própria, editando grandes tiragens e assim propagando cada vez mais a Literatura de Cordel de Juazeiro, para cujo sucesso ele tanto contribuiu.
O poeta morreu pobre. Nunca conseguiu acumular riqueza como fruto da profissão de tipógrafo e da arte de fazer verso. Mas jamais deixou de ter o reconhecimento dos críticos literários e das academias que sempre reconheceram e enalteceram o seu talento poético.
Recentemente ele foi homenageado na França, por intermédio da professora Martine Kunze, que apresentou um substancioso trabalho sobre a produção literária dele. Este trabalho estava na relação dos títulos a serem editados pela coleção Cadernos do IPESC, numa festa surpresa que nós iríamos fazer-lhe em janeiro de 1998, por ocasião dos seus 70 anos de existência.
Na verdade, nós tínhamos absoluta certeza de que ele viveria até lá. O destino, porém, quis diferente, e lhe antecipou a morte, certamente seguindo os desígnios de Deus. Mas a homenagem - agora póstuma - não deixará de ser prestada. Assim, o Caderno do IPESC, volume número 4, será editado em sua homenagem com o texto que Martine Kunze mostrou na França.


Nota: O caderno do IPESC a que se refere o artigo foi publicado.

domingo, 22 de julho de 2012

Edificações antigas estão desaparecendo


ARQUITETURA E URBANISMO

Edificações antigas quase não existem em Juazeiro

2A "Terra do Padim" acompanhou o ritmo do progresso e esqueceu de preservar parte de seus prédios históricos

Juazeiro do Norte Os velhos casarões que marcaram as primeiras edificações deste Município, praticamente, não existem mais. Mesmo nas fotografias, alguns dos locais onde estavam prédios referenciais da cidade sequer são identificados hoje. Essa é a realidade de uma cidade dinâmica, que tem procurado se adequar a uma realidade de crescimento constante. Os que chegavam a Juazeiro não tinham uma preocupação com a memória da cidade, principalmente, quando se fala em edificações.

A cidade passou a ter mudanças significativas em sua arquitetura, sem um perfil definido, mas de uma natureza eclética de desenvolvimento. Essa é a realidade de uma cidade dinâmica fotos: Elizângela santos

A área mais antiga de Juazeiro está basicamente numa das partes do Centro da cidade. No entorno da capelinha de Nossa Senhora das Dores, hoje a Basílica Menor, foram realizadas as primeiras construções.

A artista plástica Assunção Gonçalves trouxe numa tela as primeiras edificações da vila, resultado de informações repassadas por quem vivenciou o nascimento de Juazeiro. Com 98 anos, ela pouco lembra desses momentos passados, inclusive, ao lado do Padre Cícero. Mas viu o Município tomar novas feições, ganhar proporções inimagináveis. O escritor Daniel Walker lembra de uma frase do Monsenhor Murilo de Sá Barreto, em que ele dizia que "Juazeiro é de pouca geografia e muita história".

Ao repassar as paisagens antigas da velha Juazeiro, quase nada resta como lembrança. A memória foi apagada em nome do crescimento contínuo. E esse desenvolvimento passou a ter impulso, principalmente, após o milagre de 1889, com o sangramento da hóstia ofertada pelo Padre Cícero à beata Maria Araújo. A movimentação aumentou, a polêmica se espalhou e todos queriam conhecer o padre santo, que acolhia quem chegava.

O processo de ocupação, segundo Daniel Walker, começou a acontecer, e muitos vieram de fora para morar em Juazeiro. Talvez, essa realidade elucidasse um pouco a falta de apego ao patrimônio construído. Em constante mutação, se tornou comum a derrubada de prédios para o construção de comércios.

Em poucas ruas, podem ser encontrados prédios que liguem o presente ao passado. Na São José, por exemplo, no Centro da cidade, pode ser visto o Museu Padre Cícero, local onde o sacerdote passou seus dois últimos anos de vida. Hoje, abriga parte dos seus pertences. Logo abaixo, na mesma rua, um velho prédio onde hoje funciona um abrigo para idosos.

Preservação
Na Rua Padre Cícero, outra casa intacta é a da artista plástica Assunção Gonçalves. O pesquisador também lembra da oportunidade que se teve de tombamento da Capela do Socorro, junto com a Casa dos Milagres. Um conjunto que era visto como patrimônio foi descaracterizado.

Isso interrompeu o processo de reconhecimento da área, com a inclusão de uma torre com relógio à frente da capela. Ao longo dos anos, foram várias construções em volta de uma área antes descampada. Nas proximidades, foi construída a Praça do Cinquentenário. O marco das cinco décadas de Juazeiro teve seu espaço reduzido por uma escola e o Memorial Padre Cícero.

E as reformas continuam no espaço. Agora, com o projeto de requalificação de áreas da cidade, nova sinalização e iluminação, com o Roteiro da Fé, o secretário de Turismo e Romarias, José Carlos dos Santos, admite que todo o cuidado está sendo tomado no sentido de não modificar espaços, preservando a história da cidade. Pelo menos o pouco que ainda há em relação aos seus 101 anos de história. (ES)

Cidade tem um dos metros quadrados mais valorizados
Juazeiro do Norte A cidade de formação arquitetônica eclética, como descreve o arquiteto Jorge Mauro, que já projetou diversos prédios públicos na cidade, hoje tem um dos metros quadrados mais valorizados do Estado do Ceará, por conta da quantidade de investimentos comerciais e na área da construção civil, além da quantidade de universidade em uma década.

Em Juazeiro, áreas chegaram a valorizar até 300% em três anos. Esse valor também envolve a especulação diante dos novos empreendimentos implantados nos últimos anos, principalmente, os grandes investimentos no setor público. Espaços comerciais no Bairro Pirajá e no espaço do Triângulo Crajubar estão entre as áreas mais valorizadas do Município.

A especulação imobiliária dos últimos anos tornou Juazeiro do Norte bastante procurada, por conta da quantidade de investimentos

O delegado do Conselho Regional do Corretores Imobiliários (Creci - CE), em Juazeiro, Fagner Canuto Tavares, destaca as condições favoráveis na cidade para investimento no setor, mas, ao mesmo tempo, faz o alerta para as novas construções, propostas de financiamentos e principalmente a especulação.

De um lado, uma cidade mais antiga, onde se encontra a maior parte das acomodações para os romeiros, o comércio as grandes igrejas. São os ranchos e pousadas, mais próximos dos templos católicos e dos pontos de visitação romeira.

Do outro lado, uma área que em poucos anos ganhou novos bairros luxuosos, como a Lagoa Seca, se estendendo para a Cidade Universitária, onde estão situados cursos superiores de universidades públicas e privadas, além de cursos técnicos.

A cidade cresceu rápido e de forma desordenada, com ruas estreitas, saneamento precário. Os velhos casarões que ainda existentes em Juazeiro lembram em alguns detalhes o estilo neoclássico. Um deles, construído entre a rua São Pedro e rua do Cruzeiro (vizinho à Câmara Municipal), se perde em meio as novas edificações.

Há áreas no centro comercial que chega ao patamar de R$ 5 mil o metro quadrado. As que margeiam as avenidas Leão Sampaio e a Padre Cícero, nos bairros Lagoa Seca e São José, em direção às cidades de Barbalha e Crato, respectivamente, são as mais visadas pelos novos investidores que chegam a região para montar seu negócio.

Há cerca de três anos, o metro quadrado de terreno chegava a custar na área da Lagoa Seca, de R$ 10 a R$ 15, por exemplo. Hoje, a média é de R$ 250,00 a R$ 300,00. Existem áreas, de acordo com a corretora Fabiana Canuto Alves, que chegam a ter o metro quadrado no valor de R$ 2.500. (E.S.)

Mais informações: Delegacia Regional do Creci em Juazeiro do Norte -Rua José Marrocos, 31 -Centro, (88) 3512.1370 - no Crato, (88)3521. 2283 
Reportagem de Elizangela Santos - Diário do Nordeste - Caderno Regional

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Cem anos de instalação de Juazeiro


Esta cidade comemora hoje, o centenário de instalação como Município e a posse do Padre Cícero como o primeiro prefeito. Solenidades oficiais serão realizadas pela Prefeitura e Câmara Municipal. O sacerdote foi nomeado pelo então governador Nogueira Acioly. Na noite de ontem, no Memorial Padre Cícero, foi programada uma homenagem a todos os ex-prefeitos da cidade, pela Comissão do Centenário. Juazeiro do Norte teve 28 prefeitos. Os seis vivos receberam a Medalha do Centenário. Quanto aos outros, a outorga foi "in memoriam".O centenário da assinatura do "Pacto dos Coronéis" pelos principais chefes políticos do Cariri também acontece hoje. O ato se deu a partir de uma sugestão do Padre Cícero, ficando a organização sob a responsabilidade do médico Floro Bartolomeu da Costa. De acordo com o secretário de Turismo e Romaria, José Carlos dos Santos, que coordena a comissão, a relação dos homenageados teve como fontes o livro "O Padre Cícero que eu Conheci", de Amália Xavier de Oliveira, e de Daniel Walker sobre a história da independência juazeirense. A iniciativa faz parte da programação comemorativa aos 100 anos de Juazeiro que se estenderá até julho do próximo ano.
Medalha LegislativaA Câmara Municipal homenageia, na comemoração dos seus 100 anos, personalidades com a Medalha Centenária Legislativa. Serão agraciados o escritor Ralph Della Cava, coronel Adauto Bezerra, Almirante Ernani Aboim Silva, os escritores Geraldo Menezes Barbosa, Raimundo Araújo, Daniel Walker, Renato Casimiro, Renato Dantas e, ainda, a Agremiação Guarani Esporte Clube.A abertura das comemorações aos 100 anos de instalação de Juazeiro foi iniciada no último dia 1º, com show artístico em praça pública. Haverá entrega de uma placa em homenagem a José Geraldo da Cruz, escolhido como o Juazeirense do Centenário, no Memorial Padre Cícero.O pacto dos coronéis foi apontado como uma importante passagem na história do coronelismo brasileiro. O Padre Cícero era filiado ao extinto Partido Republicano Conservador (PRC). Foi o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, no ano de 1911, quando o povoado foi elevado a cidade.As comemorações do centenário de Juazeiro do Norte foram iniciadas dois anos antes de comemorar os 100 anos da cidade, marcando os 100 anos da imprensa na cidade, com o jornal "O Rebate", que teve como marca a luta pela independência. Para o presidente da comissão organizadora do centenário de Juazeiro, Geraldo Barbosa, "O Rebate" teve importância na imprensa como parte testemunhal dos acontecimentos, no tempo e na história da cidade.A cidade nos últimos anos teve uma grande mobilização para a festa. A referência ao centenário passou a ser constante pelos meios de comunicação e comércio da cidade, além do poder público, que criou uma comissão específica com a finalidade de planejar as ações e solenidades em homenagem aos 100 anos.A logomarca do centenário foi escolhida por meio da realização de um concurso.


MAIS INFORMAÇÕES Secretaria de Desenvolvimento, Turismo e RomariasPraça do Cinquentenário, S/N, Bairro Socorro. Telefone: (88) 3511.4040
4 de outubro de 2011 
Elizângela Santos
Repórter
Diário do Nordeste

Começa o inventário da oferta turística de Juazeiro do Norte


TERÇA-FEIRA, 5 DE MAIO DE 2009
Uma reunião com professores e alunos do Cefet, no Círculo Operário São José, foi o ponto de partida para a realização do Inventário da Oferta Turística de Juazeiro do Norte. O grupo ouviu os professores Renato Dantas, Daniel Walker e José Carlos dos Santos, Secretário do Turismo e Romaria. Foi uma espécie de apresentação de uma ideia geral do município, a fim de que os alunos do curso de Turismo pudessem traçar um caminho com a abertura da Setur para prestar assessoria.
Até o próximo sábado, dia 9, a equipe estará em campo dividida em grupos distintos. A coordenação é da professora de Turismo do Cefet, Ione Chaves, auxiliada pelo também professor José Sólon Sales e Silva. Ela apresentou o grupo e a metodologia de trabalho, após o professor Renato Dantas falar sobre o imaginário existente em Juazeiro. "Aqui é uma cidade que se ergueu atraindo homens de bem diante de um espaço religioso", falou Renato.
O misticismo em torno de Juazeiro foi o centro da conversa do professor Daniel Walker. O Secretário de Turismo, José Carlos dos Santos, destacou a importância do trabalho que vai deixar o município em condições de conquistar verbas federais para o setor. O resultado do Inventur, como é chamado, vai alimentar o sistema de informações do Ministério do Turismo uma das condições para a captação de recursos destinados a projetos na área.
MÓDULOS - Um grupo formado por 12 alunos está responsável pelos módulos "A" e "B" e iniciou o trabalho de campo ainda na manhã desta segunda-feira. A professora Ione Chaves explica que o módulo "A" cuida de levantamentos sobre a infraestrutura de apoio ao turista e detalhes outros como a história do município, geografia, política, estrutura administrativa, comunicações, vias de acesso, segurança pública, atendimento médico-hospitalar, farmácias, educação e templos.
Já o módulo "B" trata dos serviços específicos como as condições de hospedagem, alimentação, agências de viagens, transportes, espaços para eventos como congressos e seminários, calendário de festividades sagradas e profanas, áreas de lazer e entretenimento, dentre outros detalhes afins. Finalmente o módulo "C" conta com 11 estudantes do Cefet. Eles levantarão os atrativos naturais, culturais e econômicos como os Arranjos Produtivos Locais (APLs). Verão sítios históricos como o Santo Sepulcro, edificações, celebrações, produção artesanal e as manifestações folclóricas.
Postado por Tarso Araújo   às 07:55

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Atualizada em 16/11/2009 às 13:20:20

Por: Elizângela

Pesquisadores doam acervo para UFC Cariri

O material doado por Renato Casimiro e Daniel Walker vai compor o Centro de Referência e Memória de Juazeiro.

 

Um acervo considerável da história de Juazeiro do Norte e do Cariri foi doado, no início do mês, ao curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Campus Avançado da UFC Cariri, pelos pesquisadores Renato Casimiro e Daniel Walker. A solenidade contou com uma exposição, com parte do acervo entregue à UFC.


 



O material fará parte do Centro de Referência e Memória da Cidade de Juazeiro do Norte, que será inaugurado em 2011, em comemoração ao centenário de Juazeiro. O centro vai servir como um espaço de disseminação da cultura e história da região, vinculado ao Laboratório de Ciência da Informação do Curso de Biblioteconomia da UFC Cariri.

O material inclui desde bibliografias, fotos, jornais, xilogravuras, cordéis, material em áudio e vídeo até esculturas de artistas como o Mestre Noza e documentos originais da cidade, como cartas do Padre Cícero. O acervo que se encontrava emprestado ao Centro Cultural Banco do Nordeste, pertencente ao professor Renato Casimiro, com 59 esculturas do Mestre Noza, também será repassado para a UFC.

O trabalho associado dos dois intelectuais de colecionar material histórico, cultural e social continua. Segundo o professor Daniel Walker, ele e Renato Casimiro continuarão a reunir acervos importantes e poderão fazer novas doações.

Só para se ter uma ideia, são mais de oito mil cordéis, xilogravuras de todos os cordelistas de Juazeiro e mais de duas mil imagens digitalizadas, além de obras de xilógrafos do Crato, como o mestre Walderêdo Gonçalves. Além disso, serão doados 15 mil exemplares de jornais, desde os primeiros registrados na história da cidade aos atuais. Os jornais servirão para compor o acervo para o curso de Jornalismo, a ser iniciado em 2010. Além disso, foram doados mais de 20 mil documentos, incluindo cartas originais e telegramas de personalidades como o Padre Cícero.

São mais de 40 anos da "mania" de juntar material, segundo Renato Casimiro. Daniel Walker afirma que tudo começou nos anos 70, com uma exposição sobre Juazeiro antigo. "Ficamos felizes, comovidos, porque temos a certeza de que estamos entregando à instituição certa", ressalta. A ideia tem servido de incentivo. O repentista e violeiro Pedro Bandeira também cedeu o seu acervo.


Foto: Elizângela Santos


TERÇA-FEIRA, 17 DE MAIO DE 2011

A imprensa no Juazeiro

Centenário de Juazeiro do Norte # 34
 Todos sabem da importância da imprensa, tanto pro bem quanto pro mal. E em Juazeiro, o Jornal "O Rebate"[com primeira edição de julho de 1909] teve uma relevância fundamental na emancipação deste município. Pioneiro na imprensa, “O Rebate” teve sua primeira edição relançada em 2009 e marcou o início dos festejos do centenário.
A imprensa de Juazeiro é tratada com muito zelo e faz parte das pesquisas de Renato Casimiro e Daniel Walker, e foram apresentadas em uma exposição no Centro Cultural Banco do Nordeste, também em 2009.
Estou relembrando o fato para destacar a importância da imprensa para a nossa cidade e também por estarmos orgulhosos em fazer parte dessa história. Quando recebemos o folder da exposição e descobrimos "O Berro" e o "Guia Cultural" em sua catalogação, vimos que nossos esforços eram válidos, não só por esse registro, mas por todo o incentivo que recebemos de amigos e pessoas que cobravam o nosso retorno. O resultado é este blog, feito com nosso carinho e dedicação para todos.



E além de "Enquanto o garçom não vem", "Sovaco de Cobra", "Gota Serena" e centenas de outros informativos, relembramos nossos contemporâneos: a revista “Geral”, que junto com “O Berro” produziu, além dos seu impressos, eventos alternativos na região; e o "Quatro", que ainda hoje veicula suas poesias e matérias nos espaços comerciais de Juazeiro.



Para saber um pouco mais sobre a pesquisa de Renato Casimiro e Daniel Walker, clique aqui.  

Professor diz que Padre Cícero se preocupava com a segurança alimentar

Uma Mesa Redonda seqüenciou na noite desta segunda-feira, no Campus Cariri da UFC (Universidade Federal do Ceará), a programação da 28ª Semana do Padre Cícero em comemoração aos 166 anos do sacerdote. O tema central foi “Padre Cícero, Padroeiro das Florestas” e atraiu dezenas de alunos lotando o auditório daquele estabelecimento de ensino. A abordagem central coube ao biólogo e professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), Francisco Cunha.
A acolhida aos participantes foi feita pelo coordenador do Campus, Ricardo Ness, seguido pelo Secretário de Turismo e Romarias, José Carlos dos Santos, que falou sobre a programação da Semana do Padre Cícero. Na mesa presidida pelo professor Daniel Walker e tendo como debatedor o engenheiro agrônomo e aluno do curso de Filosofia da UFC, William Brito, o palestrante definiu o Padre Cícero como um homem que se preocupava com a segurança alimentar das pessoas.
O professor Francisco Cunha chamou a atenção para outra preocupação do sacerdote que era a explosão demográfica e a necessidade do desenvolvimento, mas respeitando os limites com aproveitamento racional dos recursos naturais. Na opinião dele, o Cariri é uma região abençoada e apontou a experiência do Caldeirão do Beato José Lourenço como um “novo modelo em função da terra”. Observou ainda que, de um “vila paupérrima”, Juazeiro se tornou, em pouco tempo, numa das cidades mais importantes do Nordeste.
O palestrante estimou que, nos últimos quatro anos, os investimentos entre públicos e privados em Juazeiro e no Cariri foram da ordem de R$ 1 bilhão. A programação da Semana do Padre Cícero reserva para as 18h30min desta terça-feira, dia 23, apresentação de filmes e a inauguração do relógio remissivo do Centenário na Praça Padre Cícero. Às 20 horas, no adro da Capela do Socorro, o lançamento do romance “A Mulher Sem Túmulo”, de Nilze Costa e Silva.
Logo depois começa a XXII Seresta de Padre Cícero com a participação de 22 seresteiros homenageando o sacerdote. Convidados pelo município, 166 famílias juazeirenses levarão seus bolos para serem cortados a meia-noite em meio a um show pirotécnico, canto de parabéns e oferta do “Caldo da Nair”. Os destaques do dia 24 de março ficarão por conta da celebração de Missa, Corrida Padre Cícero entre Crato e Juazeiro e a tradicional Procissão das Flores.
Texto: Demontier Tenório
Fonte: http://blogdojuazeiro.blogspot.com/


quinta-feira, 14 de junho de 2012


Juazeiro do Norte-CE: PADRE CÍCERO ´Milagre´ marca desenvolvimento

A terra de Padre Cícero tem, ao longo destes 100 anos, se destaca na região como um polo de novas oportunidades
Juazeiro do Norte, uma cidade que nasceu de um sonho e tomou o rumo do desenvolvimento por um milagre. FOTO: ARQUIVO
Juazeiro do Norte, uma cidade que nasceu de um sonho e tomou o rumo do desenvolvimento por um milagre. FOTO: ARQUIVO
Uma cidade que nasceu de um sonho e tomou o rumo do desenvolvimento por um milagre. Assim, o Padre Cícero Romão Batista iniciou sua morada e, respectivamente, marcou o seu sacerdócio anos mais tarde. Das imagens oníricas do “Padim” da terra que teria que cuidar ao fenômeno da hóstia que virou sangue na boca da beata Maria Araújo, os rumos da cidade promissora, em poucos anos, tomou força. De lá para cá, não mais parou.
As oficinas incentivadas para cada casa e, em cada oficina um oratório, se multiplicaram. O Padre Cícero recebia os novos moradores direcionando-os para o trabalho e a oração. E para os que aqui já estavam também. Mas o crescimento de Juazeiro tomou proporções maiores e, hoje, é um polo regional. A economia vem se fortalecendo ao longo dos anos e a área educacional está em expansão, com os cursos universitários que se multiplicaram em pouco menos de uma década. São, principalmente, instituições particulares.
Local estratégico
CAPELA DO SOCORRO, nas primeiras décadas do século XX. Se o local não tivesse sofrido modificações arquitetônicas seria tombado FOTOS: ARQUIVO DANIEL WALKER E ELIZÂNGELA SANTOS
CAPELA DO SOCORRO, nas primeiras décadas do século XX. Se o local não tivesse sofrido modificações arquitetônicas seria tombado FOTOS: ARQUIVO DANIEL WALKER E ELIZÂNGELA SANTOS
A localização geográfica, em relação às capitais nordestinas, além da constante dinâmica, com confluência dos consumidores de toda a região do Cariri, todos os dias, atraídas pelo comércio local, destaca a cidade no cenário da Região Metropolitana do Cariri (RMC). São quase 250 mil habitantes, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E mais a somar, com a população flutuante. Durante as maiores romarias do ano, esse número chega a triplicar. A cidade vira um formigueiro humano.
Para os técnicos, esse reflexo no desenvolvimento, mesmo diante do aspecto positivo do crescimento econômico, traz preocupações quanto ao planejamento urbano. O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de Juazeiro, mesmo feito em 2000, não poderá abraçar a curto prazo todas as demandas. Tantas mudanças ao longo de um século de existência, proporcionam ações emergentes de planejamento urbano.
A RUA SANTA Luzia, no Centro da cidade, e sua transformação ao longo de décadas. FOTOS: ARQUIVO DANIEL WALKER E ELIZÂNGELA SANTOS
A RUA SANTA Luzia, no Centro da cidade, e sua transformação ao longo de décadas. FOTOS: ARQUIVO DANIEL WALKER E ELIZÂNGELA SANTOS
Não deu para ver a Juazeiro histórica crescer. Os pesquisadores tentam adivinhar em fotografias o que restou de um passado edificado. Um deles é Daniel Walker, que possui um rico acervo fotográfico do que pode ser resgatado dessa memória tão recente. Ele lamenta a ausência de zelo pelo patrimônio. Uma área urbana pequena, que entra nos distritos e nos sítios dos seus arredores, com a força total das construções, vai incorporando tudo ao redor.
Modernização
Hoje, a rua Santa Luzia é um dos principais corredores comerciais de Juazeiro do Norte, com a presença de lojas de vários segmentos FOTOS: ARQUIVO DANIEL WALKER E ELIZÂNGELA SANTOS
Hoje, a rua Santa Luzia é um dos principais corredores comerciais de Juazeiro do Norte, com a presença de lojas de vários segmentos FOTOS: ARQUIVO DANIEL WALKER E ELIZÂNGELA SANTOS
Os velhos casarões vão se esgotando e dando lugar a prédios modernos. A fase é de verticalização, com os edifícios redesenhando a paisagem urbana. Do alto do Horto, como disse em tom forte o cantor Luiz Gonzaga, o padrinho está vivo. O visionário de uma terra que se suplanta e renasce a cada dia maior, nos empreendimentos que se multiplicam em todos os cantos da cidade. A população, que no início de sua formação se encontrava em cerca de 95% no campo, tem essa lógica invertida nos tempos atuais.
A centenária Juazeiro é diferente da maioria das cidades do Cariri. A paisagem é árida. Quase não há floresta. O geossítio da Colina do Horto privilegia o espaço onde há um pouco dessa natureza. Por iniciativa da administração do Horto, foi iniciado, há alguns anos, um projeto de reflorestamento da área.
Juazeiro passou a ser o terceiro polo calçadista do Brasil. As fábricas saíram dos fundos dos quintais e formalizam mão-de-obra. São mais de 16 mil empregos diretos neste setor. O comércio atacadista traz empresas de grupos internacionais. O perfil do empreendedor local avança, agrega força em rede, para competir. É uma nova realidade. O Juazeiro muda. Uma terra em constante metamorfose.
Investimentos
A iniciativa privada investe por todos os lados, com novos empreendimentos. Além da duplicação do atual Cariri Shopping, com investimentos de R$ 70 milhões, mais um, em breve, será iniciado, com o nome da cidade. Serão mais cerca de R$ 50 milhões investidos. No próximo dia 12 de julho, mais um grande supermercado, com uma cadeia de lojas, será inaugurado. O Hiperbompreço, da rede Walmart, está tendo investimentos de mais de R$ 30 milhões na cidade.
Para o economista Micaelson Lacerda, o Município de Juazeiro do Norte vem apresentando uma dinâmica econômica singular nos últimos anos.
Ele explica que esse dinamismo é decorrente, principalmente, da indústria e dos serviços em conjunto com importantes investimentos públicos dos governos Federal e do Estado, nos últimos anos.
Fique por dentro
Metropolitana
Criada por uma Lei Complementar Estadual nº 78, de 29 de junho de 2009. A Região Metropolitana do Cariri (RMC) surgiu a partir da interligação entre os Municípios de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha, denominada Crajubar. Somando-se a eles, as cidades limítrofes situadas no Cariri cearense: Caririaçu, Missão Velha, Farias Brito, Jardim, Nova Olinda e Santana do Cariri. Tem como área de influência a região Sul do Ceará e é divisa entre o Ceará e Pernambuco. O Município do Crato é o maior em área, com 1.009 km². Juazeiro do Norte é o menor Município, com 248km², e também o mais populoso, com 249.936 habitantes. Nova Olinda é o de menor população: 14.256 habitantes. Juazeiro, pelo seu desenvolvimento, se destaca neste contexto.
População
250Mil habitantes é a estimativa populacional da cidade de Juazeiro do Norte, segundo dados do último Censo, em 2010. É a terceira cidade mais populosa do Ceará e a maior do interior
Por Elizângela Santos

JUAZEIRO DO NORTE – CEARÁ: MILAGRE´ DA HÓSTIA Fenômeno não tinha explicação científica


Juazeiro do Norte. Após longos estudos, depois de testemunhar o fenômeno da transformação da hóstia em sangue por diversas vezes, a comissão concluiu que a ciência não tinha como explicar os fatos extraordinários ocorridos em Juazeiro. O médico Marcos Rodrigues Madeira, por sua conta e risco, mandou publicar em jornais da Capital e do Recife, suas conclusões.
Dom Joaquim José Vieira, que era segundo bispo de Fortaleza com jurisdição em todo o Ceará, enviou uma comissão da própria Igreja para averiguar os fatos, liderada pelos padres Clicério da Costa Lobo e Francisco Ferreira Antero, os melhores teólogos do Ceará, para analisar o caso. A conclusão desta primeira comissão eclesial, que permaneceu durante mais de um mês em Juazeiro entrevistando pessoas, assistindo as transformações das hóstias e verificando outros fenômenos que aconteciam com a beata Maria de Araújo, foi que os fatos eram milagre. Dom Joaquim não aprovou o longo relatório escrito por estes padres e nomeou uma segunda comissão. Após três dias, nos quais deu a comunhão à beata, os encarregados, padres Antônio Alexandrino de Alencar e Manuel Cândido, declararam que o fenômeno de sangramento da hóstia não acontecera. Posteriormente, o bispo dom Joaquim teria dito que, se naquela situação a hóstia não sangrou, então todos os outros episódios em que a hóstia havia sangrado eram fraudulentos.

Foi no momento da comunhão, durante a celebração da missa, que a hóstia da beata Maria de Araújo se transformava em sangue

Foi no momento da comunhão, durante a celebração da missa, que a hóstia da beata Maria de Araújo se transformava em sangue

A beata argumentou que o “milagre” não aconteceu porque um dos padres que acompanhavam a comunhão não estava em estado de graça. Em represália, conta-se que Maria de Araújo foi punida com 12 pancadas de palmatória nas mãos. Não existe, segundo a psicóloga Maria do Carmo, prova documental sobre este episódio. A atual diretora da Casa de Caridade do Crato, madre Carmelina Feitosa, confirma que, segundo a história, a beata foi enclausurada na Casa de Caridade, por ordem de dom Joaquim, que também suspendeu as ordens sacerdotais de Padre Cícero, monsenhor Monteiro, padre Costa Lobo e padre Antero, porque não deixaram de acreditar que o fenômeno era verdadeiro milagre.

Novo Juazeiro

Mesmo diante da negação do “milagre” por parte da Igreja, Juazeiro virou centro de peregrinação. A notícia sobre o fato se espalhou como um rastilho de pólvora. Leva de romeiros chegavam diariamente ao povoado que, para eles, era o chão sagrado, a terra prometida, a Canaã nordestina. A cidade se transformou no santuário sagrado, onde os nordestinos depositavam suas esperanças, frustrações e promessas. Conforme o escritor americano Ralph de La Cava, autor do livro “Os milagres do Joaseiro”, a população do povoado triplicou em menos de um ano.

Com o crescimento de Juazeiro, começa a via-crúcis do Padre Cícero, sobre quem desaba uma campanha de inveja, intrigas e perseguições. Suspenso da ordem, proibido de oficiar atos religiosos, Padre Cícero a tudo se submeteu com resignação. Foi à Roma, por convocação superior, lá permanecendo quase nove meses. Lá reconquistou o direito de celebrar missa e, regressando a Juazeiro, estava convicto de que seria reabilitado pela Igreja. Por fim, novas sanções lhe foram impostas, sendo definitivamente suspenso da ordem.

Os romeiros, que não podiam encontrá-lo na igreja, se conformavam em ouvi-lo diariamente em sua casa, em busca de conselhos, bem como de proteção espiritual. E ele atendia a todos. Recebia e distribuía esmolas. Aconselhava-os oralmente e por escrito. Era o padrinho de todos. Logo a seguir, privado dos místeres religiosos, Padre Cícero dedicou-se à política, atendendo a apelos dos amigos, como Antônio Nogueira Acioli, substituído na chefia da presidência do Estado do Ceará pelo coronel Franco Rabelo, mais para evitar que mãos estranhas conduzissem os destinos de sua cidade, com a mesma ordem que ele conseguira até então.

Proibido de celebrar, Padre Cícero ingressou na vida política. Como explicou no seu testamento, o fez para atender aos insistentes apelos dos amigos e na hora em que os juazeirenses esboçavam o movimento de emancipação política. O jornalista e historiador, Daniel Walker, destaca que depois da independência de Juazeiro, em 22 de julho de 1911, Padre Cícero foi eleito prefeito do recém-criado Município. Além de prefeito, ocupou a vice-presidência do Ceará. Sobre sua participação na Revolução de 1914, ele afirmou categoricamente que a chefia do movimento coube ao doutor Floro Bartolomeu da Costa, seu grande amigo.

A Revolução de 1914 foi planejada pelo Governo Federal com o objetivo de depor o presidente do Ceará, coronel Franco Rabelo. Com a vitória da Revolução, Padre Cícero reassumiu o cargo de prefeito, do qual havia sido retirado pelo governo deposto, e seu prestígio cresceu. Sua casa, antes visitada apenas por romeiros, passou a ser procurada, também, por políticos e autoridades diversas. O historiador Daniel Walker lembra que era grande o volume de correspondências que Padre Cícero recebia e mandava. (AV) (Antonio vicelmo, diário do Nordeste)

Juazeiro do Norte-CE: ´GUERRA DE 1914´ Moradores lutaram pela independência

Com a conquista da independência, Padre Cícero, que já se destacava em Juazeiro, se tornou um pacificador com o pacto dos coronéis ao iniciar sua administração na cidade  ELIZÂNGELA SANTOS
Com a conquista da independência, Padre Cícero, que já se destacava em Juazeiro, se tornou um pacificador com o pacto dos coronéis ao iniciar sua administração na cidade ELIZÂNGELA SANTOS
Juazeiro do Norte Uma cidade que construiu um processo de independência, que se deu de fato apenas em 1914. O que ficou conhecida como a “Guerra de 14″ levou homens, mulheres, jovens e idosos à lutarem pelo ideal de independência política. O dia 22 de julho de 2011 marca os 100 anos de elevação de Juazeiro à categoria de Município. Nesse momento, a cidade já tinha um comércio em desenvolvimento, com o incentivo e visão do Padre Cícero. A guerra chegou a contar com estrategista que atuou na Guerra de Canudos. A muralha de pedra funcionou de forma a evitar mais derramamento de sangue.
Das três árvores de juazeiro ao firme processo de desenvolvimento, Juazeiro do Norte tem passado, nos últimos anos, por profundas mudanças que começaram dentro de um processo ideal marcado pelo próprio sacerdote. Segundo o pesquisador e escritor, Daniel Walker, em seu livro “História da Independência de Juazeiro do Norte”, lançado durante as comemorações do centenário da cidade, em 1909 foi apresentado um documento na Assembleia Legislativa do Ceará, em que já se pedia apoio pela autonomia municipal de Juazeiro. Esse documento, conforme conta, foi encontrado pelo escritor americano Ralph Della Cava nos arquivos do Colégio Salesiano. No documento é citado que antes de se tornar independente da cidade do Crato, Juazeiro já se encontrava em acelerado processo de desenvolvimento, graças ao Padre Cícero.
Nesse período, conta Walker, a cidade já contava com uma farmácia, um médico residente, um jornal, várias instituições religiosas, como o Apostolado da Oração, fundado pelo Padre Cícero, um escritório de intercâmbio comercial com a capital e uma instituição civil para cuidar do engrandecimento do lugar. Hoje, mesmo não sendo tão representativa, a zona rural tinha uma produção significativa. “Juazeiro possuía 22 engenhos de açúcar empenhados na produção de rapadura e subprodutos alcoólicos e cerca de 60 locais equipados para preparar farinha de mandioca. Além do cultivo do arroz, feijão e milho, a cidade se destacava na produção de borracha de maniçoba e algodão”, diz. Para se ter uma ideia, conta ele, o Padre Cícero chegou a introduzir a borracha no Cariri, na primeira metade do século XX. E foi graças ao seu empenho, conforme Walker, que a cultura do algodão, que havia sido praticamente abandonada, foi retomada entre 1908 a 1911.
Mas a participação do médico que veio de Salvador, Floro Bartolomeu da Costa, que para muitos era visto como um carrasco, foi essencial dentro do processo de emancipação. Começou a fazer os seus atendimentos na cidade e rapidamente se tornou figura conhecida e amigo próximo do “Padim”. Foi essencial dentro do processo de emancipação. Como tantos outros que vibraram e lutaram pelo processo de emancipação, entre eles, Padre Alencar Peixoto e os pequenos comerciantes, que reagiram aos impostos que eram pagos ao Crato.
Prefeito
O médico baiano, ressalta Walker, em primeiro momento, desde o processo de independência e de acordo com os antepassados, era quem ficava à frente da administração de Juazeiro, mesmo o prefeito sendo o sacerdote. “O Padre Cícero, para a época, já estava com a idade um pouco avançada e o dr. Floro bem mais novo, recém-chegado a Juazeiro, praticamente administrou Juazeiro”, diz.
Mas, por trás de todo o processo de transformação, o mentor era mesmo o Padre Cícero. E ele, segundo Daniel, chegou a fazer alguns melhoramentos na cidade. Outro ponto que o escritor considera importante na época do Padre Cícero, foi o planejamento urbano da cidade. Ele projetou as primeiras ruas de Juazeiro. Deixou a base para a cidade se expandir.
Por ELIZÂNGELA SANTOS