quinta-feira, 14 de junho de 2012


Juazeiro do Norte-CE: POLO DE DESENVOLVIMENTO Urbanização compromete memória local
POR JOTALOPES

– MAIO 29, 2011PUBLICADO EM: CIDADES
A expansão comercial, industrial e populacional não acompanhou a conservação da arquitetura de Juazeiro

RUA PADRE Cícero, nos anos 30, era palco das grandes realizações e comemorações da cidade, como o desfile dos estudantes, na data cívica 7 de Setembro FOTO: ACERVO DE DANIEL WALKER
A cidade de Juazeiro é de pouca geografia e muita história”. A lembrança da frase de monsenhor Murilo de Sá Barreto, pelo pesquisador Daniel Walker, pode responder à dinâmica de mudanças para a adequação do desenvolvimento ao lugar. Ao repassar as paisagens antigas da velha Juazeiro, quase nada resta como lembrança.
A memória foi apagada em nome do desenvolvimento contínuo. E esse crescimento passou a ter impulso, principalmente, após o milagre de 1889, com o sangramento da hóstia ofertada pelo Padre Cícero à beata Maria Araújo. A movimentação aumentou, a polêmica se espalhou e todos queriam conhecer o “padre santo”, que acolhia quem chegava.
O processo de ocupação, segundo Daniel Walker, começou a acontecer e muitos vieram de fora residir em Juazeiro. Talvez essa realidade elucidasse um pouco a falta de apego ao patrimônio construído. Em constante mutação, se tornou comum a derrubada de prédios antigos para o estabelecimento de casas comerciais.
Em poucas ruas podem ser encontrados prédios que ligam o presente ao passado. Na Rua São José, por exemplo, no Centro da cidade, pode ser visto o Museu Padre Cícero, local onde o sacerdote passou seus dois últimos anos de vida. Hoje abriga parte dos seus pertences. Logo abaixo, na mesma rua, um velho prédio onde hoje funciona um abrigo para idosos.
Raridades

Atualmente, uma das saídas do Centro de Juazeiro, a Rua Padre Cícero abriga consultórios, além do comércio. É, também, um dos trechos mais congestionados da cidade FOTO: ELIZÂNGELA SANTOS
Na Rua Padre Cícero, outra casa intacta, conforme o professor Daniel, é a da artista plástica, Assunção Gonçalves. Ela, contemporânea do Padre Cícero, está com 95 anos. Dona Assunção resgatou em uma das suas telas a imagem do início da cidade, a partir de depoimentos de antepassados seus. Uma pequena vila, a então capelinha de Nossa Senhora das Dores, que deu origem à Basílica Menor atual, e às três árvores de juazeiro, simbólica árvore do centenário, disseminada por meio de projeto para o Nordeste.
O pesquisador também lembra da oportunidade que se teve de tombamento da Capela do Socorro, junto com a Casa dos Milagres. Um conjunto que era visto como patrimônio foi descaracterizado. Isso interrompeu o processo de reconhecimento da área, com a inclusão de uma torre com relógio à frente da capela. Ao longo dos anos, foram várias construções em volta de uma área antes descampada. Nas proximidades, foi construída a Praça do Cinquentenário. O marco das cinco décadas de Juazeiro teve seu espaço comprimido por uma escola e o Memorial Padre Cícero.


Ação privada

A única casa tombada na cidade aconteceu por iniciativa da própria família. O casarão da família Bezerra, na Rua Padre Cícero, visivelmente bem preservado, já virou até atração turística no período natalino, como a casa de Papai Noel. Outras ruas, como a Santa Luzia e a Conceição, preservam construções antigas de algumas casas.
A violência contra a memória revela a falta de preocupação que nunca se teve com o patrimônio, conforme conta Daniel. “Falta zelo. Não há apego afetivo. Os prédios antigos deram espaço para os comerciais”, diz.
Há pouco mais de dois anos, um dos últimos casarões, localizado na Rua Padre Cícero, foi demolido para dar lugar a um estacionamento. E os herdeiros das casas mais antigas passaram à frente o patrimônio que lhes restaram. A sanha imobiliária não perdoa o que vê pela frente. A história se constrói em nome do progresso. (E.S.)
Fique por dentro
Centro religioso
Juazeiro do Norte teve sua emancipação política em 22 de julho de 1911. Graças à figura de Padre Cícero Romão Batista, é considerado um dos maiores centros de religiosidade popular da América Latina, atraindo quase dois milhões de romeiros por ano. O Município se localiza na Região Metropolitana do Cariri, no sul do Estado, a 514km da Capital, Fortaleza. Sua área é de 248,558Km², a uma altitude média de 377,3 metros. A população, estimada em 249.936 habitantes, o torna o terceiro Município mais populoso do Ceará, a maior cidade do interior cearense e a centésima maior do Brasil. A taxa de urbanização é de 95,3%. Tem sua economia focada, principalmente, no comércio, com presença de grandes redes, e também na indústria.
PERFIL INDEFINIDO
Arquitetura segue estilo eclético
Uma cidade eclética. Assim descreve o arquiteto Jorge Mauro, que há mais de 30 anos adotou a terra do “Padim” como um lugar seu. Natural de Crateús, na época em que chegou à cidade, brincava com os amigos que encontrava. “Eram, em sua maioria, de outras cidades do Brasil. No meio de tantos, tinha um juazeirense”, diz.
Ele chegou a projetar muitos prédios públicos. Não esteve na elaboração do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) de Juazeiro, no ano 2000. Mas diz que as mudanças que poderiam acontecer, por conta das irregularidades de muitas construções, são praticamente impossíveis a essa altura. Não teria como indenizar tanta gente, na demolição de prédios. Por conta disso, praticamente não foi posto em prática.
Os velhos casarões ainda existentes na cidade lembram em alguns detalhes o estilo neoclássico. Só lembram mesmo. Um deles, construído entre as ruas São Pedro e do Cruzeiro (vizinho à Câmara Municipal), se perde em meio às novas edificações.
Por ser uma cidade nova, em relação ao Crato, por exemplo, já que nasceu do antigo lugarejo de Tabuleiro Grande, na época território cratense, não há a menor inspiração em suas construções do período imperial, como é o caso também de Barbalha.
Perfil
Para Jorge Mauro, ao longo do centenário, Juazeiro não chegou a desenvolver um perfil arquitetônico. Os senhores de engenho não habitaram por essas paragens. As lembranças, quase de passagem nas construções mais antigas, trazem um pouco do neoclássico e também o estilo colonial. Tudo em pequenos detalhes.
“Uma cidade sem memória e que hoje representa um verdadeiro caos urbano”. O arquiteto se refere à quase total ausência de edificações da antiga Juazeiro e ao processo rápido de urbanização, sem planejamento. Em cinco anos, diz ele, se não houver mudanças imediatas e novas construções, a cidade simplesmente para. O arquiteto destaca a construção de vias alternativas para o fluxo de veículos. São apenas uma via principal para o Centro, a Rua São Pedro, e duas saídas, as ruas São Paulo e Padre Cícero. Pedestres e motoristas, muitas vezes, dividem o mesmo espaço. “Simplesmente inchou”. (E.S)
Diário do Nordeste

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