terça-feira, 28 de maio de 2013

Daniel Walker: Guardião da memória do Padre Cícero e de Juazeiro

Professor, escritor e jornalista, Daniel Walker há mais de 40 anos se dedica a pesquisar e a difundir a história do Padre Cícero, de Juazeiro do Norte e de seus personagens. Trabalho incansável, feito de forma independente e diletante, “mas com muito prazer”. Autor de cerca de 50 obras, muitas delas sobre a vida e obra do patriarca da Meca do Cariri, Daniel Walker é a principal referência na cidade para pesquisadores, jornalistas e interessados, e exemplo da luta pela preservação da memória do Cariri

Um dos episódios mais marcantes da vida de Daniel Walker Almeida Marques – a cirurgia para extração de um rim que doou a um irmão, em São Paulo – foi também decisivo para o rumo da sua vida dali em diante. O ano era 1969, e ainda hospitalizado em recuperação do procedimento cirúrgico, ele recebeu mais de 10 edições de jornais do Sudeste. Em comum a todas as capas, a inauguração da estátua em homenagem ao Padre Cícero, na colina do Horto. “O assunto foi destaque em jornais como O Estado de São Paulo, Última Hora, Folha de São Paulo, Jornal O Globo e Jornal do Brasil. As reportagens, bem positivas, enfocavam sempre o padre como um santo nordestino, e diziam que o local iria se transformar numa grande atração turística. Retornei a Juazeiro bastante empolgado, e passei a pesquisar tudo sobre o tema”, lembra.
Mas Juazeiro e sua vocação já chamavam a atenção de Daniel Walker desde a infância. Nascido próximo à Capela do Perpétuo Socorro, que abriga os restos mortais do Padre Cícero, ele vivenciou a religiosidade de maneira muito forte. “Quando criança, eu via Juazeiro como uma cidade sagrada. Como morávamos no bairro do Socorro, minha ambiência sempre foi em meio aos romeiros, que durante as romarias carregavam aquelas imagens e objetos sagrados”, afirma. Mas sua admiração não se resumia só ao visual. Assim como outros meninos da sua idade, aos sete anos pendurava uma caixa de sapatos com um cordão no pescoço e vendia velas aos que peregrinavam à cidade em busca de conforto espiritual.
Nascido a 6 de setembro de 1947, Daniel Walker é o terceiro da prole de cinco filhos do ourives José Marques da Silva (Zeca Marques) com a professora Maria Almeida Marques, ambos de Juazeiro do Norte. A profissão do pai de Daniel também tinha ligação com a religiosidade. Segundo ele, a cidade, que chegou a ter mais de 500 ourivesarias foi, durante o apogeu nos anos 1960, o maior centro nordestino no ramo, e se notabilizou por fabricar também em ouro artigos como escapulários, medalhas e crucifixos, além dos anéis de formatura, alianças, pulseiras, brincos e cordões. “O ouro enricou muita gente em Juazeiro. Só não ao meu pai, que não foi ousado. A produção era vendida da Bahia ao Pará”, acrescenta. 
A infância de Daniel Walker foi marcada pelos banhos no rio Salgadinho, os jogos de peteca e futebol na praça onde hoje está o Memorial do Padre Cícero, no bairro do Socorro. No auge dos filmes de faroeste que passavam nos cines Eldorado, Avenida e Roulien, a moda era brincar de caubói. As primeiras letras Daniel aprendeu com dona Toinha Gonçalves, uma rígida professora a quem recorriam até as famílias mais abastadas, quando seus filhos se viam em apuros com o boletim. “Ela era do tempo da palmatória. A gente tinha costume de levar bolo, quando cometia indisciplina ou falhava na sabatina, em que um aluno era designado para fazer perguntas a outro. Não tinha jeito”. Porém, a maior recordação do tempo em que tinha aulas na escola que funcionava na própria residência da professora foi a sólida e abrangente formação humanística, que incluía, entre outras, noções higiene, cidadania, religião e comportamento. 
Da escola de Toinha Gonçalves, Daniel ingressou no Grupo Rural Modelo (Escola de Aplicação da Escola Normal Rural) e no Grupo Escolar Paulo Sarasate, todos de Juazeiro do Norte. Em 1960, início do ginásio, foi para o Colégio Agrícola de Lavras da Mangabeira em regime de internato, onde fez o 1º Ano do Curso de Iniciação Agrícola. A experiência foi breve. “Foi de muito choro com saudade de casa. Fiz só o primeiro ano”.
De volta a Juazeiro, Daniel Walker passou o que classifica como os melhores momentos da vida estudantil no Colégio Salesiano São João Bosco, entre 1961 e 1964. Aluno sempre destacado, foi lá que ele despertou para a que considera sua principal vocação: a de comunicador. “Iniciei minhas atividades de radialista e jornalista, fazendo locução, redigindo e apresentando noticiário no Serviço de Auto-Divulgação Salesiana [SADS], uma amplificadora que funcionava no colégio Salesiano como sendo uma emissora de rádio”, explica. A amplificadora foi fundada em 1964 com os amigos Vital Tavares, Wellington Amorim, José Marques Filho, Jussier Cunha e Renato Casimiro, ajudando a revelar também outros nomes para o rádio de Juazeiro. Nessa época, ele conseguiu as primeiras façanhas na atividade: emplacar uma matéria no Jornal Juvenil, e uma nota na seção “O Impossível Acontece” da Revista O Cuzeiro. “Narrava o fato real de homem que tentou o suicídio pulando da torre da Capela do Socorro, caindo em cima de outro homem que passava na frente da capela, matando-o. Os dois morreram na hora”, conta. Também no serviço militar para o qual entrou em 1966 como atirador do Tiro de Guerra 210, Daniel Walker exerceu o radiojornalismo.
O gosto de Daniel pelo rádio foi crescente. Àquela altura, já era ouvinte da BBC de Londres e das emissoras dos Diários Associados, além da Ceará Rádio Clube, de Fortaleza, onde passou a admirar nomes como Narcélio Limaverde, João Ramos e Wilson Machado. Sua profissionalização na atividade veio a partir de 1964, quando passou a atuar como locutor e redator no Serviço de Alto-falantes Cicerópolis (Saci).
Pouco tempo depois, Daniel foi convidado por Coelho Alves para trabalhar na Rádio Iracema, onde permaneceu de 1965 a 1971. “Minha maior glória foi ter redigido e apresentado, com Coelho Alves, o Grande Jornal Sonoro Iracema”. O noticiário ia ao ar à noite, às 22 horas, e Daniel redigia notícias sobre os fatos ocorridos na cidade. Uma das curiosidades daquele tempo é que, como não havia gravador, para poder entrevistar e redigir, ele teve de dominar a técnica da taquigrafia. 
Nesse ínterim, em 1965 e 1966 Daniel Walker foi aluno do Colégio Diocesano do Crato, onde cursou o 1º e 2º ano científicos. Como em Juazeiro não havia universidade, tentou o vestibular depois de concluir o segundo grau no Colégio Castelo Branco, de Fortaleza, onde fez ainda o cursinho pré-vestibular. Reprovado no vestibular para Agronomia da Universidade Federal do Ceará, Daniel retornou a Juazeiro e foi aprovado no vestibular de Fisioterapia na Faculdade de Medicina em Recife, curso que frequentou apenas o primeiro semestre.
Paralelo ao trabalho no rádio, atuou como correspondente do Jornal O Povo, integrou a diretoria do Centro Estudantal Juazeirense (CEJ), foi redator-chefe do jornal Tribuna de Juazeiro, fundado por Aldemir Sobreira, e colaborou nos jornais Folha de Juazeiro, A Imprensa, Folha de Juazeiro, Jornal do Cariri, Tribuna do Ceará, Tribuna do Cariri e Correios Estudantil, entre outros. 
Depois de voltar de São Paulo, Daniel começou a se dedicar também à pesquisa sobre a história do Padre Cícero e de Juazeiro do Norte. “Me juntei a Renato, José Carlos Pimentel, Padre Murilo e José Onofre, quando fizemos a primeira exposição no edifício Dom Pires, em Juazeiro, de 250 fotografias históricas de Juazeiro e do Pe. Cícero. Essas fotos hoje estão no Memorial”, recorda. A partir daí, Daniel e Renato passaram a engordar o acervo de documentos. “Nos empolgamos e começamos a trabalhar o garimpo das fontes, e assim conseguimos ajuda de muitos colaboradores. Ajudamos muitos pesquisadores”, rememora.
Em 1971, Daniel Walker foi aprovado em primeiro lugar no vestibular para o Curso de História Natural da Faculdade de Filosofia do Crato, graduação que concluiu a Licenciatura em 1974. Pós-graduou-se Especialista em Ciências (UFC), em Sexologia (Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro) e em História do Brasil (Universidade Cândido Mendes). No mesmo ano, iniciou a carreira de professor de Ciências no Curso de Madureza do Colégio Estadual de Juazeiro do Norte, posteriormente batizado de Centro Educacional Professor Moreira de Sousa. No colégio, ensinou turmas do Ensino Fundamental, do Curso Científico, do Curso Normal Pedagógico e do Quarto Pedagógico, até se afastar para aposentadoria em 2004. Daniel lecionou ainda na Escola Técnica de Comércio, no Colégio Menezes Pimentel, na Escola de 2º Grau Governador Adauto Bezerra e no Cursinho Pré-vestibular Objetivo. Em 1982 ingressou no quadro de professores da Faculdade de Filosofia do Crato, hoje Universidade Regional do Cariri (Urca), permanecendo no Curso de Biologia, até 2001, quando se aposentou como professor adjunto, no topo da carreira, inclusive com o título de Professor Emérito.
Ao lado de Bendimar de Lima, José Boaventura, Renato Casimiro e Renato Dantas, Daniel Walker fundou o Instituto José Marrocos de Pesquisas e Estudos Sócio-Culturais (Ipesc), na mesma época da criação da Urca. No instituto, foi nomeado pelo reitor José Teodoro Soares coordenador de pesquisa e editoração. De acordo com Daniel, o instituto, criado para fomentar a pesquisa e a divulgação da história e da cultura caririenses, logrou êxito em sua missão apenas durante o reitorado de Teodoro à frente da Urca. “Conseguimos o entrosamento dos pesquisadores de fora com Juazeiro, e instituto incentivou nomes importantes em suas pesquisas, entre eles Gilmar de Carvalho, Régis Lopes, Osvaldo Barroso, Diatahy Bezerra de Menezes, Olga Paiva, Martine Kunz, Luitgarde Oliveira e Marcelo Camurça”, cita.
Em 1984, o sonho de ser proprietário de uma emissora de rádio veio com a criação da Transcariri FM, ao lado de Coelho Alves, Cícero Antônio, Francisco Silva Lima e Adauto Bezerra Junior. “A gente sempre ficou admirado de Cajazeiras (PB) ter uma FM (Patamuté) e Juazeiro não. Decidimos concorremos em um edital e ganhamos a concessão. “O negócio não dava lucro, mas não devíamos a ninguém”, afirma ele, que era também responsável pelas finanças da emissora, a qual deixou para se dedicar à universidade.
A experiência no Ipesc deu a Daniel Walker a possibilidade de ampliar seu trabalho de pesquisa e produção intelectual iniciada no final dos anos 1960. “Disso resultou a publicação de vários livros. Participei de muitos simpósios, congressos e encontros, alguns dos quais como palestrante ou membro da comissão organizadora. Fiz dezenas de cursos de extensão cultural e ministrei vários cursos abrangendo as áreas da Biologia, História Regional e Turismo”, orgulha-se. Entre suas principais obras, estão Padre Cícero: A sabedoria do conselheiro do sertão, em que foi pioneiro na catalogação dos conselhos do Padre Cícero, até então dispersos em publicações, História da Independência de Juazeiro do Norte, O Pensamento vivo de Padre Cícero e Padre Cícero na Berlinda. Seu primeiro livro, História da CCPM, foi lançado em 1966, e conta a história da Cooperativa de Crédito dos Primos Marques, uma espécie de banco para emprestar dinheiro aos primos da Família Marques. “Foi um grande sucesso. A Cooperativa depois se expandiu e passou a oferecer empréstimos a pessoas do Bairro do Socorro, não pertencentes à Família Marques”, explica.
Na era da internet, Daniel foi o criador do primeiro jornal eletrônico de Juazeiro, o Juazeiro Online, fundado em 2004. Depois de completar 250 edições, o jornal virou o Portal de Juazeiro (http://www.portaldejuazeiro.com), até hoje um dos mais importantes sites noticiosos da cidade. Além do magistério e do rádio, ele ainda trabalhou de 1971 a 1974 como relações públicas da Companhia de Eletricidade do Cariri (Celca, depois Coelce); como gerente da Credimus S.A. Crédito Imobiliário, além de acumular experiências desagradáveis no serviço público municipal em 2000 e 2009. “Foi a pior experiência de minha vida”, resume. Casado com a Professora Tereza Neuma de Macedo e Silva Marques, Daniel é pai do professor universitário Michel, e do engenheiro de produção Daniel Walker Junior.
A dedicação ao Padre Cícero por parte de Daniel Walker vem da gratidão pelo que o sacerdote fez pela cidade. “Acredito que foi ele quem colocou Juazeiro no mapa do Brasil. Se não fosse ele, seria um reles povoado que talvez viesse a virar uma cidade, mas nunca igual a que é hoje. O tenho na conta de uma figura carismática muito forte, por conta dos romeiros. O Padre Cícero é o ímã que atrai gente que faz o desenvolvimento de Juazeiro. Sou um admirador e estudioso de sua história”, pontua. Diariamente, Daniel Walker se dedica ao trabalho de pesquisa e orientação a pesquisadores de todo o Brasil, que vão pessoalmente à sua casa ou enviam e-mails, prontamente respondidos. “É um trabalho não remunerado, por diletantismo, mas que faço com muito prazer”. 


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SOBRE DANIEL WALKER

“Daniel Walker é um homem exemplar. Discreto, aparentemente tímido, nada falastrão, se desmancha em atenções e generosidade com quem pesquisa o universo do Juazeiro do Norte. Minhas buscas, que começaram, mais sistematicamente, em 1986, devem muito a ele. Solícito, prestativo, perdi a conta das vezes que me levou para visitar um artista, um penitente, um brincante de folguedo, alguém que pudesse ser interessante para a minha compreensão daquele mundo, tão fascinante quanto desafiador. Relembro, com saudades, das tardes de sábado, quando ia me apanhar no Hotel Viana para o café na casa do Monsenhor Murilo. Tantas conversas sobre a cidade, seus anseios, suas frustrações e suas personagens... Daniel Walker é um amigo querido, um pesquisador sério e um homem comprometido, de verdade, com o Juazeiro do Norte. Tenho muito respeito e muito carinho por ele. Grande Daniel!!!”, 
Gilmar de Carvalho, professor, pesquisador e escritor

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“Daniel Walker é um amigo que cultivo há mais de 50 anos. Costumo me referir a ele, não como um amigo, simplesmente, mas como um irmão muito estimado. São qualidades de grande relevância na sua pessoa a solidariedade, a sinceridade, e uma profunda honestidade em todos os seus propósitos e iniciativas. Educador de grandes méritos, tenho por ele uma imensa admiração, pela coerência de suas atitudes, pela organização de seu trabalho, por seus métodos e pela fidelidade aos seus princípios éticos e morais, dos quais não faz concessões. É admirável e exemplar o seu amor ao Juazeiro, o zelo e a dedicação incansável para exaltá-lo e divulgá-lo em tantas e distintas formas, por longos anos. Neste sentido, construiu uma obra literária que serve da forma mais desprendida possível à construção de uma nova imagem de sua cidade. Homem de grande humanismo no exercício profissional e cidadão, é admirado por todos os seus amigos com um exemplo irretocável de personalidade. Por isso mesmo, para mim, em meio século de amizade, sua existência e o convívio entre nossas famílias são motivos de grande júbilo, e eu procuro celebrar isto como uma grande graça e uma grande dádiva”, Renato Casimiro, professor, pesquisador.     

segunda-feira, 27 de maio de 2013

MEMÓRIA DO CARIRI: Juazeiro do Norte perde dois ícones da história do município

26.05.2013
Mulheres tinham identificação com a arte e a religiosidade manifestadas no polo de romarias do Cariri
Óleo sobre tela mostra os primeiros momentos da formação de Juazeiro do Norte, quando Padre Cícero profetizou o crescimento da cidade na região. A pintura era uma das características de dona Assunção, que faleceu aos 97 anos Fotos: Elizângela Santos

Juazeiro do Norte. A história deste município perde dois grandes nomes, durante o último fim de semana. Com 78 anos, morreu a irmã Therezinha Stella Guimarães, doutora em Psicologia da Religião e membro da Pastoral da Romaria, e dona Maria Assunção Gonçalves, educadora e artista plástica, contemporânea do Padre Cícero e uma de suas últimas afilhadas ainda vivas, uma das responsáveis por reacender o legado histórico do sacerdote. Ela estava prestes a completar, em 1º de junho, 97 anos. A cidade ficou de luto para se despedir de duas mulheres que deixaram uma relevante contribuição relacionada à religiosidade, resgate histórico, educação e evangelização, junto aos romeiros que chegam à cidade.

As mudanças rápidas do município, nos últimos anos, não era algo que agradava Assunção, a mulher que conseguiu resgatar, por meio de sua arte, os primeiros momentos em que se desenhava a história. Uma capela e três árvores de juazeiro, características principais da pequena Tabuleiro Grande.

Ela obteve de moradores mais antigos e sua família o testemunho de como era a pequena vila, em seu princípio. E foi traçando o que hoje desconhecia como a grande cidade. Em sua casa, ela preservava muito de um passado, que se foi junto com tantos nomes que puderam testemunhar o crescimento do que era previsto, em relação ao Juazeiro, pelo Padre Cícero.

Dona Assunção era uma devota da Mãe das Dores e conviveu com o Padre Cícero Romão Batista. Nos últimos anos, não gostava mais de dar entrevistas para falar da história local. A memória não ajudava, e tanto esforço a deixava aflita. Tinha na vaga lembrança momentos da história de uma cidade que iniciava o seu povoamento.

Memória
A memória dos antepassados estava sempre a povoar a mente de mais de nove décadas e que renderam homenagens e reconhecimentos, pela sua contribuição, principalmente no setor educacional. A pequena vila que nasce sob as orações de Nossa Senhora das Dores se torna um dos maiores centros de religiosidade do País. A imagem da santa que veio de Portugal é mantida na casa paroquial. Mas, dona Assunção guardava a foto da imagem barroca, estilo bizantino, com carinho. Foram 10 anos de convivência com o Padre Cícero.

A única remanescente foi testemunha do trabalho do sacerdote, também devoto da santa. Padre Cícero contribuiu para disseminar a devoção à Nossa Senhora das Dores, por todo o Nordeste brasileiro.

Dona Assunção foi desenganada ao nascer. Todos pensavam que não iria escapar. O batismo foi feito pelo Padre Cícero. Ela considerava o sacerdote um visionário. Previa os lugares de cada coisa. Da pequena viela o padre já falava numa cidade sem tamanho, que iria crescer de uma forma inimaginável. Uma das coisas que o "Padim" falou era de que numa das áreas da cidade existiriam vários cemitérios. "Isso hoje é uma realidade", dizia a educadora. Em um dos bairros distantes de Juazeiro existem quatro deles, além do cemitério do Socorro, vizinho à capela onde estão depositados os restos mortais do sacerdote.

Eram as lembranças dos últimos anos, perdidas no pensamento. Dona Assunção fazia um esforço, mas se alegrava sempre em poder vivenciar a confirmação do que o Padre Cícero falava. Houve momento de uma dedicação maior pelos registros em suas telas da história de Juazeiro. Dos homens simples, dos romeiros. Para produzir os quadros que faziam referência ao passado, sempre recorria à memória de sua mãe e da avó. Mas, os mínimos detalhes vinham na ponta dos pincéis. Desde bancos de frente à casa alpendrada do brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro aos momentos de alegria dos moradores, vivenciadas na localidade.

Responsável
E foi o brigadeiro, o responsável pela aquisição da imagem de Nossa Senhora das Dores, em Lisboa, Portugal. Padre Cícero ao chegar em Juazeiro do Norte, em 1877, já encontrou a capela com a imagem. A atual igreja teve sua pedra fundamental lançada em 15 de setembro de 1925. Daí nasceu a devoção.

A capela foi feita com a finalidade do neto do brigadeiro, padre Pedro Ribeiro Gonçalves Bezerra de Menezes, celebrar missas na vila.

Nos momentos de maior aflição, dona Assunção buscava na Mãe das Dores o refúgio. Descente do brigadeiro, tem no sangue a devoção de família. Sempre lembrava da dedicação do monsenhor Murilo de Sá Barreto, momento em que houve um crescimento da igreja, com a Basílica. Ele dedicou 48 anos ao trabalho missionário em Juazeiro, à frente da Matriz.

Numa das ocasiões em que dona Assunção estava na igreja, no ano de 1965, ouviu um sonoro "viva o Padre Cícero", do padre Murilo. Chegou a ficar aflita, achando que ele seria expulso da igreja por aquela atitude se o bispo tomasse conhecimento. Ao conversar, ele afirmou que não faria aquilo sem antes avisar ao bispo. Foram gritos de resistência dentro da própria igreja. Atitudes que se manifestam hoje na expansão da fé romeira. Testemunhados por uma das mulheres que marca a história da cidade, deixando a única imagem que remete ao início da formação da terra do Padre Cícero.

Famílias
Para o escritor e jornalista, Daniel Walker, com a morte da artista plástica, o Juazeiro tradicional, aquele do Padre Cícero, de monsenhor Murilo de Sá Barreto, dos romeiros, da Escola Normal, do Ginásio Municipal Dr. Antônio Xavier de Oliveira e das famílias tradicionais que a conheciam e a respeitavam está de luto, pelo nível de importância da educadora e artista. "Assunção conviveu com o Padre Cícero em sua fase de adolescente e dele guardou muitas recordações", disse. Para ele, Assunção será lembrada por conta da sua extensa biografia, como educadora, artista plástica, mestre na arte de confeitos de bolo e ornamentação de noivas.

Também houve o dia em que a mulher que perfumou o Padre Cícero saiu às ruas, para jogar a água de colônia em sua nova batina. Foi no dia da inauguração da imagem do Padre Cícero, na praça que leva o nome do "Padim" Cícero, pelo próprio. Para ela, era a mais perfeita de todas e a que realmente parecia com o sacerdote.

Lembranças
10 dos 97 anos de vida de dona Assunção foram passados ao lado do Padre Cícero. A artista plástica e educadora ainda guardava lembranças felizes do sacerdote.


Irmã Ana exerceu vocação religiosa

Juazeiro do Norte. A prima do Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, morou por mais de quase quatro décadas na terra do Padre Cícero, onde desenvolveu um trabalho voltado para a pastoral das romarias e junto ao projeto ´O Semeador´, com a irmã Annette Dumoulin. Esteve acompanhando nesses últimos anos, a dinâmica da religiosidade numa terra que adotou como sua casa, até morrer. Irmã Therezinha Stella Guimarães, durante a comemoração do centenário da cidade de Juazeiro do Norte, em 2011, lançou o livro "Padre Cícero e a Nação Romeira", fruto de uma pesquisa para o seu doutoramento, na Universidade de Louvain, na Bélgica.

Irmã Ana Teresa chegou ao Juazeiro do Norte na década de 1970, como missionária católica e observadora religiosa e acabou morando por 40 anos

A pesquisa, que retratava um estudo psicológico da função de um ´santo´ no catolicismo popular, como diz o subtema do trabalho, foi apresentado em 1983. Ela fez a apresentação de trabalhos importantes, lançados durante o centenário da cidade. De acordo com o pesquisador, Daniel Walker, ela foi diretora da congregação Cônegas de Santo Agostinho, em Juazeiro do Norte. "Irmã Ana Teresa ou ainda Irmã Teresinha, como era conhecida por todos, tem uma larga folha de bons serviços prestados a esta cidade, como religiosa e como pesquisadora da vida do Padre Cícero e estudiosa das romarias, sobre quem publicou vários trabalhos", afirma.

Ela esteve integrando a comissão, que foi a Roma, em 2006, entregar o pedido de reabilitação do Padre Cícero. O trabalho de pesquisa que desenvolveu, conforme o jornalista, teve uma larga repercussão junto aos meios acadêmicos.

Chegou ao Juazeiro do Norte, lembra ele, na década de 1970, como observadora anônima, juntamente com sua colega de congregação, irmã Annette Dumoulin, para conhecer o fenômeno religioso envolvendo Padre Cícero e as romarias.

"Ficou tão fascinada com o que viu que decidiu, juntamente com a irmã Annette, morar na cidade". Nesse período, foi fundada a Congregação das Cônegas de Santo Agostinho.

De acordo com Walker, elas receberam do então padre Murilo, vigário da Matriz de Nossa Senhora das Dores, todo o apoio necessário para o desenvolvimento das atividades religiosas, sendo imediatamente engajada na pastoral das romarias.


ELIZÂNGELA SANTOS
REPÓRTER DN - Regional