ARTIGOS

Padre Cícero e o Pacto dos Coronéis 

Introdução
No dia 4 de outubro de 1911,  o recém-criado município de Juazeiro, Ceará,  foi sede de dois grandes eventos políticos: a posse de Padre Cícero Romão Baptista no cargo de intendente (atualmente se diz prefeito) e a realização de uma assembleia ou sessão política para assinatura de um controvertido documento que passou à história com o nome de Pacto dos Coronéis. O referido documento também foi chamado de Pacto de paz, Pacto de harmonia política, Aliança política, Conferência política, Pacto de Haya-mirim e ainda Artigos de fé política.

Quando se fala no nome do Padre Cícero, a figura que realça em primeiro lugar é a de santo dos nordestinos, pois é como tal que ele é mais conhecido. Entretanto, existe em sua biografia um forte peso como figura política, embora isto seja mais conhecido e estudado apenas pelos seus pesquisadores. Aqueles que se consideram seus devotos, pouca ou nenhuma importância dão ao fato, porquanto para eles o que importa mesmo é o homem santo capaz de fazer milagres, o protetor nas horas das aflições. E foi assim que ele conseguiu uma grande legião de devotos. Como político fez muitos desafetos.

Mas de uns tempos para cá, sua vida política começou a ser dissecada pelos cientistas sociais e a partir da publicação dos primeiros textos, uma nova legião de admiradores surgiu. 

Assim, a dicotomia envolvendo o santo e o político passou a ter terreno próprio e essas duas vertentes, indissolúveis e complementares, coexistem a despeito dos pareceres positivos de uns e negativos de outros.

Como signatário do Pacto dos Coronéis, Padre Cícero consolidou sua vida política, transformando-se na maior liderança do interior cearense. Porém, se por um lado isto lhe deu uma indiscutível força de mando, por outro lado arranhou profundamente sua  biografia perante a sua igreja, que já o tinha na conta de embusteiro e doravante passou a tê-lo também como um coronel, certamente uma nódoa na sua apregoada santidade. 

Por isso, é muito importante estudar essa particularidade da sua vida a qual já rendeu farta bibliografia e não para de crescer. Neste contexto, o objetivo principal deste trabalho é fazer uma análise das implicações decorrentes da assinatura do Padre Cícero no Pacto dos Coronéis, conforme as opiniões emitidas por escritores que estudaram o assunto em seus mais variados aspectos. 

Para melhor compreensão do tema é feita inicialmente a transcrição da ata do histórico evento e a partir daí tem início a análise que define a importância do Pacto dos Coronéis na história política do Padre Cícero. No final é apresentada uma galeria com fotos de alguns dos coronéis que tiveram ligação com o famigerado evento. 
                                                                                                                          
O que é coronelismo
Até o final do século XIX, esteve em vigor no Brasil,  um sistema conhecido popularmente por coronelismo, cuja política era controlada e liderada pelos ricos fazendeiros então denominados de coronéis.  

No interior cearense, mais particularmente no Cariri, o coronelismo se caracterizava pela prática abusiva de duas irregularidades: o voto de cabresto e a fraude eleitoral. 

Na Velha República, o sistema eleitoral vigente era bastante vulnerável à manipulação. Por isso, os coronéis poderosos compravam votos para seus candidatos ou então os permutavam por bens materiais. Como o voto era aberto (não havia ainda o sistema de urnas), os eleitores se sentiam coagidos e para evitar represálias não havia outro jeito senão votar no candidato indicado pelos coronéis. As regiões sobre as quais os coronéis exerciam poder de mando político ficaram conhecidas como “currais eleitorais”. 

Entre as fraudes eleitorais praticadas pelos coronéis caririenses estavam o costume de alterar votos, sumir com urnas e o uso abusivo do chamado voto fantasma, o qual consistia em falsificar documentos para que eleitores pudessem votar várias vezes em prol de determinado candidato. Era comum inclusive o voto de pessoas mortas. 
Fim do coronelismo
O coronelismo em seu formato original começou a ser extinto com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, como resultado da Revolução de 1930. Em algumas regiões do Brasil desapareceu completamente, mas em outras  o coronelismo  continuou mais algum tempo, embora com menos intensidade e adaptado a uma nova realidade. A compra de votos continua até hoje. Mas os atuais chefes políticos, mesmo sendo grandes latifundiários, não são mais chamados de coronéis.

Padre Cícero pode ser chamado de coronel?
Por ser dono de várias propriedades rurais (embora tenha deixado tudo para a Igreja) e poder para decidir uma eleição, Padre Cícero é considerado por muitos escritores como tendo sido um coronel. Mas a pecha de coronel, no sentido como o termo é usado e entendido no Nordeste, não se coaduna com o comportamento e a personalidade do Padre Cícero. Ninguém conhece registro da existência de armas em sua residência ou de capangas a sua disposição, coisas muito comuns aos coronéis de que fala a literatura.

Entretanto, até hoje, não existe consenso com respeito a Padre Cícero ser ou não considerado como um coronel. As opiniões emitidas pelos estudiosos são muito variadas e dicotômicas. 

Vejamos algumas:
Maria de Lourdes M. Janotti, escritora: "Padre Cícero foi o mais célebre de todos os coronéis". 

José Fábio Barbosa da Silva, professor e escritor: "Padre Cícero também era o coronel dono de imensa força política que passou a representar os romeiros, quando Juazeiro se tornou independente. O Padre Cícero também possuía o status mais elevado, mais alto que o dos coronéis tradicionais". 
Moisés Duarte, evangélico:  “Padre Cícero era amigo do peito de vários latifundiários da região, conhecidos como "os coronéis". Esses senhores ilustres eram opressores dos pobres, marginalizavam os sertanejos, excluindo-os do direito à saúde, aos alimentos e até à vida. Pasme, o Padim Ciço pertencia a essa espécie de liga de coronéis do Ceará e a defendia”.

Rui Facó, jornalista: "Por que o Padre Cícero desfrutando de enorme popularidade, dispondo de tudo quanto fazia de alguém um coronel, por que não seria ele um coronel? Apenas porque vestia batina, ordenara-se padre, fazia milagres? Na verdade, nada diferenciava o Padre Cícero Romão Batista de qualquer dos latifundiários da zona. Utilizou, e em grande escala, os mesmos métodos familiares àqueles, como dar abrigo a capangas e cangaceiros e aproveitá-los ou permitir que outrem os aproveitassem para a consecução de objetivos políticos que também eram os seus". 

José Boaventura de Sousa, historiador e professor: "Padre Cícero foi um coronel, mas um coronel diferente da conotação que a sociologia aponta. Não foi um coronel explorador, foi um coronel porque todos o procuravam como um líder". 

Francisco Régis Lopes Ramos, historiador e escritor: "Padre Cícero alia-se aos coronéis, mas não se torna um deles. Suas atitudes são de apadrinhamento, de um protetor dos desclassificados, de um conselheiro e não de um político ou coronel". 

Neri Feitosa, sacerdote e escritor: "Ele não tinha patente militar nem da Guarda Nacional. Ninguém o chamou oralmente de coronel. Por escrito, deram-lhe este epíteto por hipérbole e por analogia". 

Marcelo Camurça, historiador:  “No meu modo de ver o Padre Cícero se relacionou com as oligarquias, transitou na sociedade política, se compôs com os setores dominantes, tanto pela sua condição de sacerdote letrado, um intelectual tradicional, e esta condição o estimulava qual outros padres no Império e na República a ter uma projeção social, quanto pela vontade de ajudar o seu povo, de levar adiante o seu projeto de manter de pé a comunidade do Juazeiro, pela via da conciliação tão marcante na sua visão de mundo. Porém, o Padre Cícero nunca abriu mão de sua identidade sacra, do seu papel de guia religioso, de líder espiritual, para se tornar um político profissional, tampouco abriu mão da mística do "milagre" e de sua visão messiânica, simbólica do catolicismo popular, daquele primeiro sonho que teve quando Cristo encarregou-o de cuidar do Juazeiro e de seu povo. Este sem dúvida não é o perfil de um "Coronel" latifundiário ou de um político das classes dominantes”. 

Ata do Pacto dos Coronéis
“Aos quatro dias do mês de outubro do ano de mil novecentos e onze, nesta vila de Juazeiro do Padre Cícero, município do mesmo nome, Estado do Ceará, no paço da Câmara Municipal, compareceram à uma hora da tarde os seguintes chefes políticos: coronel Antônio Joaquim de Santana, chefe do município de Missão Velha; coronel Antônio Luís Alves Pequeno, chefe do município do Crato; reverendo Padre Cícero Romão Batista, chefe do município do Juazeiro; coronel Pedro Silvino de Alencar, chefe do município de Araripe; coronel Romão Pereira Filgueiras Sampaio, chefe do município de Jardim; coronel Roque Pereira de Alencar, chefe do município de Santana do Cariri; coronel Antônio Mendes Bezerra, chefe do município de Assaré; coronel Antônio Correia Lima, chefe do município de Várzea Alegre; coronel Raimundo Bento de Sousa Baleco, chefe do município de Campos Sales; reverendo padre Augusto Barbosa de Menezes, chefe do município de S. Pedro do Cariri; coronel Cândido Ribeiro Campos, chefe do município de Aurora; coronel Domingos Leite Furtado, chefe do município de Milagres, representado pelos ilustres cidadãos, coronel Manuel Furtado de Figueiredo e major José Inácio de Sousa; coronel Raimundo Cardoso dos Santos, chefe do município de Porteiras, representado pelo reverendo Padre Cícero Romão Batista; coronel Gustavo Augusto de Lima, chefe do município de Lavras da Mangabeira, representado por seu filho João Augusto de Lima; coronel João Raimundo de Macedo, chefe do município de Barbalha, representado por seu filho major José Raimundo de Macedo e pelo juiz de direito daquela comarca, doutor Arnulfo Lins e Silva; coronel Joaquim Fernandes de Oliveira, chefe do município de Quixará, representado pelo ilustre cidadão major José Alves Pimentel; e o coronel  Inácio de Lucena, chefe do município de Brejo Santo, representado pelo coronel Antônio Joaquim de Santana. A convite deste que, assumindo a presidência da magna sessão, logo deixou, ocupando-a o reverendo Padre Cícero Romão Batista para em seu nome declarar o motivo que aqui os reunia. Ocupada a presidência pelo reverendo Padre Cícero, fora chamado o major Pedro da Costa Nogueira, tabelião e escrivão da cidade de Milagres, que também se achava presente. Declarou o presidente que aceitando a honrosa incumbência confiada pelo seu prezado e prestigioso amigo coronel Antônio Joaquim de Santana, chefe de Missão Velha e traduzindo os sentimentos altamente patrióticos do egrégio chefe político, Excelentíssimo Senhor Doutor Antônio Pinto Nogueira Accioly, que sentia d´alma as discórdias existentes entre alguns chefes políticos desta zona, propunha que, para desaparecer por completo esta hostilidade pessoal, se estabelecesse definitivamente uma solidariedade política entre todos, a bem da organização do partido os adversários se reconciliassem, e ao mesmo tempo lavrassem todos um pacto de harmonia política. Disse mais que para que ficasse gravado este grande feito na consciência de todos e de cada um de per si, apresentava e submetia à discussão e aprovação subseqüente os seguintes artigos de fé política:
Art. 1º - Nenhum chefe político protegerá criminoso do seu município nem dará apoio nem guarida aos dos municípios vizinhos, devendo ao contrário, ajudar a captura destes, de acordo com a moral e o direito.
Art. 2º - Nenhum chefe procurará depor outro chefe, seja qual for a hipótese.
Art. 3º - Havendo em qualquer dos municípios reações, ou mesmo, tentativas contra o chefe oficialmente reconhecido com o fim de depô-lo, ou de desprestigiá-lo, nenhum dos chefes dos outros municípios intervirá nem consentirá que os seus municípios intervenham ajudando direta ou indiretamente os autores da reação.
Art. 4º - Em casos tais só poderá intervir por ordem do governo para manter o chefe e nunca para depor.
Art. 5º - Toda e qualquer contrariedade ou desinteligência entre os chefes presentes será resolvida amigavelmente por um acordo, mas nunca por um acordo de tal ordem, cujo resultado seja deposição, a perda de autoridade ou de autonomia de um deles.
Art. 6º - E nessa hipótese, quando não puderem resolver pelo fato de igualdade de votos de duas opiniões, ouvir-se-á o governo, cuja ordem e decisão será respeitada e restritamente obedecida.
Art. 7º - Cada chefe, a bem da ordem e da moral política, terminará por completo a proteção a cangaceiros, não podendo protegê-los e nem consentir que os seus munícipes, seja sob que pretexto for, os protejam dando-lhes guarida e apoio.
Art. 8º - Manterão todos os chefes políticos aqui presentes inquebrantável solidariedade não só pessoal  como política, de modo que haja harmonia de vistas entre todos, sendo em qualquer emergência “um por todos e todos por um”, salvo em caso de desvio da disciplina partidária, quando algum dos chefes entenda de colocar-se contra a opinião do chefe do partido, o Excelentíssimo Doutor Antônio Pinto Nogueira Accioly: Nessa última hipótese cumpre ouvirem e cumprirem as ordens do governo e secundarem-no nos seus esforços para manter intacta a disciplina partidária.
Art. 9º - Manterão todos os chefes incondicional solidariedade com o Excelentíssimo Doutor Antônio Pinto Nogueira Accioly, nosso honrado chefe, e como políticos disciplinados obedecerão incondicionalmente suas ordens e determinações.
Submetidos a votos, foram todos os referidos artigos aprovados, propondo unanimemente todos que ficassem logo em vigor desde essa ocasião.
Depois de aprovados, o Padre Cícero levantando-se declarou que sendo de alto alcance o pacto estabelecido, propunha que fosse lavrado no Livro de Atas desta municipalidade todo o ocorrido, para por todos os chefes ser assinado, e que se extraísse uma cópia da referida ata para ser registrada nos Livros das municipalidades vizinhas, bem como para ser remetida ao doutor presidente do Estado, que deverá ficar ciente de todas as resoluções tomadas, o que foi feito por aprovação de todos e por todos assinado.
Eu, Pedro da Costa Nogueira, secretário, a escrevi.
Assinam: 
Padre Cícero Romão Batista
Antônio Luís Alves Pequeno
Antônio Joaquim de Santana
Pedro Silvino de Alencar
Romão Pereira Filgueiras Sampaio
Roque Pereira de Alencar
Antônio Mendes Bezerra
Antônio Correia Lima
Raimundo Bento de Sousa Baleco
Padre Augusto Barbosa de Menezes
Cândido Ribeiro Campos
Manoel Furtado de Figueiredo
José Inácio de Sousa
João Augusto de Lima
Arnulfo Lins e Silva
José Raimundo de Macedo
José Alves Pimentel

Comentários
- “O receio era o de que a reunião acabasse em tiro. Nunca se viram – nem jamais se voltaria a ver – tantos coronéis sertanejos assim reunidos em um mesmo lugar, como naquele 4 de outubro de 1911, em Juazeiro, o dia da posse do Padre Cícero na prefeitura. Lá fora, as ruas estavam enfeitadas de bandeirinhas de papel e a banda do mestre Pelúsio de Macedo fazia a festa. No interior da casa que sediou a solenidade oficial, os dezesseis homens vestidos em roupa de domingo foram recebidos com chuvas de flores e papel picado. Mas não escondiam de ninguém, que ruminavam uma coleção de rancores mútuos. Praticamente todos os chefes políticos do Cariri – incluindo o coronel Antônio Luís – haviam acatado o chamado do sacerdote para tão insólito conclave que marcaria seu primeiro dia como prefeito. Quando Padre Cícero levantou da mesa ao final daquela histórica reunião e passou a colher a assinatura de todos, os coronéis do Cariri já  tinham tomado consciência de que, diante da nova situação, precisavam eleger um chefe imediato entre eles. Esse chefe não seria, necessariamente, Accioly. Carecia ser alguém que estivesse mais perto deles e que, a despeito das diferenças e dos ódios pessoais que os separavam, fosse um homem cuja palavra seria acatada sem ressalvas. Os coronéis precisavam de um líder político no Cariri. Naquela tarde, esse líder se revelara naturalmente – e já tinha um nome. O nome dele, ninguém se atreveria a discordar, era Padre Cícero”. Assim, Lira Neto descreveu em seu livro Padre Cícero, poder, fé e guerra no sertão a reunião em que foi assinado o Pacto dos Coronéis.

- Durante muito tempo se especulou a respeito de quem concebeu a ideia da famigerada reunião. O nome do seu autor está até hoje envolto em mistério, sendo motivo de muitas especulações. O primeiro sinal dado no sentido de tentar elucidar o mistério pode ser visto num dos artigos da série “Formal desmentido” publicada por Dr. Floro Bartholomeu da Costa, no jornal Unitário, de Fortaleza, de 9 a 17 de junho de 1915,  onde ele escreveu: “Determinado o dia 11 de outubro do mesmo ano de 1911 para a inauguração da vila e estando mui acirrados os ódios dos chefes do Cariri, especialmente os de Lavras, Aurora, Milagres, Missão Velha, Barbalha e Brejo dos Santos, contra os do Crato e os de Porteiras, lembrei ao Padre Cícero a necessidade de estabelecer-se a harmonia entre todos.  Para isso conseguir, a todos convidamos, de acordo com o Dr. Nogueira Accioly, para no dia 4 de outubro estabelecermos um pacto de paz entre todos os chefes inimizados.”  

- O escritor Otacílio Anselmo tem opinião diferente, pois na sua volumosa obra Padre Cícero, mito e realidade diz que, na reunião em que Padre Cícero foi empossado como primeiro Prefeito de Juazeiro, o juiz de Barbalha, Dr. Arnulfo Lins e Silva “aproveitou o ensejo para inspirar e, sob o patrocínio do Padre Cícero, promover um convênio entre os numerosos chefes municipais ali reunidos, no sentido de estabelecer um clima de paz e assegurar a tranquilidade das populações caririenses, até então em pânico permanente por conflitos armados resultantes de velhos ódios entre grupos e famílias irreconciliáveis, transmitidos de geração em geração e que ainda hoje subsistem.”

- Edmar Morel  atribui a ideia do pacto dos coronéis ao Padre Cícero, pois em sua obra Padre Cícero, o santo do Juazeiro ele assim escreveu: “O Padre querendo firmar o seu prestígio junto à oligarquia dos Acciolys, que já governavam o Ceará há vinte anos, em dois períodos, e ao mesmo tempo pôr em prova se ainda seria hostilizado pelos políticos, seus vizinhos, como no caso das minas do Coxá, levanta a ideia da realização de um convênio, no Juazeiro, com a participação de todos os senhores feudais, senhores de cangaceiros e senhores de eleitores”. O autor conclui tachando o pacto como “uma página da história do banditismo no Nordeste, um pacto de honra assinado pelos maiores e mais respeitáveis coronéis que infelicitaram os sertões do Brasil, atirando homens contra homens e transmitindo o ódio e a sede de vingança de geração em geração. Uma página celebérrima do cangaceirismo no Brasil”.

- Nesta mesma linha segue Amália Xavier de Oliveira, quando em seu livro O Padre Cícero que eu conheci, afirmou: “Foi o Padre Cícero quem programou, para o dia de sua posse, uma reunião com os chefes políticos da região a fim de assinarem um pacto de amizade e apoio mútuo tendo como um dos objetivos evitar movimentos que perturbassem a ordem na região caririense, procurando resolver as questões que surgissem, sem contendas prejudiciais, ao desenvolvimento das comunas”. E concluiu Amália Xavier de Oliveira: “Para fazer apresentação dos artigos o coronel Santana passou a Presidência (da reunião) ao Rev. Pe. Cícero, que explicou, aos presentes, a razão por que se fazia, naquele momento, um pacto de amizade e auxílio mútuo, com aquele programa de orientação”. 
Esta passagem, inclusive, está registrada na ata do pacto transcrita no início deste capítulo. Assim, temos três autores da ideia do Pacto: Dr. Floro, o juiz Dr. Arnulfo e o Padre Cícero. E a dúvida persiste com respeito à autoria. 

- Em seu livro Império do bacamarte o escritor Joaryvar Macedo tenta minimizar a questão da autoria da ideia do Pacto salientando que: “Seja quem for o autor do Pacto, é lícito admitir, ou mesmo acreditar nas suas retas intenções. Não parece justo considerá-lo uma farsa em sua gênese, como querem alguns. O acordo, na sua realidade, transformou-se numa pantomima, porque inexeqüível, pelo menos em parte dos seus artigos. Homens, na sua maioria despóticos, vezeiros em dominar pelo poder do bacamarte, achavam-se absolutamente despreparados para assumir compromissos de tal ordem. De outro ângulo, deixar de proteger facínoras e cangaceiros equivaleria a decretar a extinção do coronelismo. Um dos seus mais fortes esteios era precisamente o banditismo”.

- Diz ainda Joaryvar: “O texto da ata da singular Assembleia dos coronéis sul-cearenses, na qual se firmou o curioso pacto, reflete a posição proeminente do Padre Cícero na contextura coronelítica regional. Manifesta ademais, que, naquela conjuntura, a jeito trabalhada e preparada, o levita, além de assumir a chefia local, investia-se, concomitantemente, no comando político da região”.

- Assim como Joaryvar Macedo, Otacílio Anselmo também acha que “apesar da boa intenção do seu idealizador, o pacto seria inexeqüível num meio em que a lei vigente era a do mais forte e onde as questões, mesmo as mais simples, resolviam-se ao sabor da vontade soberana de velhos sobas apegados a seus interesses econômicos e as suas ambições políticas”.

- Para o escritor Rui Facó, na sua famosa obra Cangaceiros e fanáticos, “o pacto era na verdade um sinal de debilidade, um prenúncio de decadência do coronel tradicional, do potentado do interior, outrora senhor absoluto de seu feudo e em disputa constante com os feudos vizinhos. Sua maneira de pensar fora sempre esta: todos lhe deviam render vassalagem!”.
- Para  Irineu Pinheiro, autor de Efemérides do Cariri, os coronéis presentes à reunião em Juazeiro assinaram de comum acordo “um pacto de amizade e apoio mútuo com o fim de extinguir a proteção aos criminosos, evitar movimentos que perturbassem a vida das comunas caririenses, buscando resolver as questões que surgissem entre chefes vizinhos!”.

- A imprensa cearense deu vasta cobertura à reunião que culminou com a assinatura do pacto. Nada, contudo, se compara ao que estampou o jornal O Correio do Cariri, da cidade do Crato que após extensa matéria concluiu assim: “Podem os nossos leitores avaliar das boas intenções daqueles que, esquecendo antigos ressentimentos, se congraçaram, para, cumprindo santos deveres sociais, rasgarem um novo horizonte mais amplo e mais claro, aos públicos negócios desta opulenta e próspera parte de nosso Estado”. 

- Mas para o historiador americano Ralph Della Cava, autor de Milagre em Joaseiro, os coronéis do Cariri “contentes com a vitória obtida sobre Antônio Luís e desejosos de impedir que o Juazeiro viesse a dominar a região lançaram na famosa reunião a proclamação do hoje famoso Pacto dos Coronéis”. E conclui della Cava: “Finalmente, com o objetivo de fazer vigorar o pacto e garantir a participação da região na divisão do espólio político do poder estadual, comprometiam-se todos os delegados (presentes à reunião), a manter “incondicional” solidariedade com o excelentíssimo doutor Antônio Pinto  Nogueira Accioly, seu honrado chefe, e como políticos disciplinados obedecer incondicionalmente suas ordens e  determinações”.

- No final das contas, o certo mesmo é que o pacto falhou fragorosamente no conteúdo dos seus dois últimos artigos, pois cerca de pouco mais de três meses após a sua assinatura o presidente Accioly é apeado do poder, constituindo-se no mais duro golpe para os chefes políticos Acciolynos do Ceará.

- A queda do velho cacique da política cearense trouxe de roldão também o baque de muitos coronéis do Cariri, seus correligionários, mas, consoante acentua Joaryvar Macedo “a partir daí, começariam os caciques sul-cearenses, com desmedido empenho, a preparar uma sublevação, no sentido de retornarem ao poder supremo dos seus redutos eleitorais. E voltaram todos, com a vitória da rebelião de Juazeiro, de 1913 para 1914, - uma sedição dos coronéis”. 

- À reunião para assinatura do Pacto duas importantes forças políticas do Cariri não marcaram presença nem mandaram representantes: coronel Basílio Gomes da Silva, de Brejo Santo, e coronel Napoleão Franco da Cruz Neves, de Jardim, pois ambos já haviam rompido com Accioly. Contudo, outros chefes políticos destes municípios estavam presentes.

Conclusão
Diante do exposto, fica evidente que paira dúvida sobre quem é o autor da ideia de realização da reunião que resultou na assinatura do Pacto dos coronéis. Mas todos concordam num ponto:  a aposição da assinatura do Padre Cícero no referido documento oficializou sua liderança como chefe político da Cariri, mas também o transformou num coronel de batina conforme lhe atribuem muitos dos seus biógrafos.  
Também  fica evidente que mesmo o Pacto não tendo conseguido o êxito esperado, isso não diminuiu em nada o prestígio político do Padre Cícero que mais tarde o confirmou quando liderou juntamente com o deputado Floro Bartholomeu da Costa, em 1914,  o movimento sedicioso que culminou com a deposição do Presidente do Ceará, Franco Rabelo.
Também é possível concluir que depois do Pacto dos Coronéis a história do Padre Cícero toma outro rumo, agora de natureza política, mas que andou ao lado da sua já consolidada áurea de líder religioso de uma grande massa de sertanejos, sob o olhar de repúdio da Igreja Católica Apostólica Romana, que tirou suas ordens em 1894 e em 2015 promoveu sua reconciliação.  
Não obstante as críticas ostensivas dirigidas  a assembleia política que culminou com a assinatura do Pacto dos Coronéis, não há como anular o fato de este evento figurar como um dos mais importantes acontecimentos políticos da história do Cariri e do Ceará, pois nunca se viu tantos caciques da política cearense juntos numa vila recém-criada. E mais: somente o Padre Cícero teria força e prestígio suficientes para convocar os participantes da reunião. 
Por tudo isso, o Pacto dos Coronéis é tema recorrente na vasta bibliografia de Padre Cícero e jamais deixará de ser um assunto polêmico.  

GALERIA DOS PERSONAGENS DO PACTO DOS CORONEIS
    Padre Cícero                           Dr. Floro
                                                 
    Cel. Accioly             Cel. Antônio Luís
                                                           
    Cel. Antônio Correia Lima e Pe. Augusto Barbosa
 
     Cel. Gustavo Augusto e Cel. João Augusto
    Cel. José Alves Pimentel e Cel. Pedro Silvino
     Cel. Cândido Ribeiro Campos    e  Cel. Antônio Joaquim de Santana
     Cel. Romão Pereira Filgueiras Sampaio

O Pacto dos Coronéis na concepção da artista plástica juazeirense Assunção Gonçalves. Esta tela encontra-se exposta na Câmara Municipal de Juazeiro do Norte.  

Casa de dona Rosinha Esmeraldo (em sua arquitetura original) onde Padre Cícero foi empossado no cargo de intendente de Juazeiro e também local da realização da assembleia política que lavrou o Pacto dos Coronéis. 
    

Prédio onde foi assinado o Pacto dos coronéis atualmente


BIBLIOGRAFIA
     
ANSELMO, Otacílio. Padre Cícero: mito e realidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
BARBOSA DA SILVA, José Fábio. Organização Social de Juazeiro e Tensões entre Litoral e Interior, in Sociologia, vol. XXIV, n° 3, setembro de 1962. São Paulo,, Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo.
CAMURÇA, Marcelo. Marretas, molambudos e rabelistas: a revolta de 1914 no Juazeiro. São Paulo: Maltese, 1994.
DELA CAVA, Ralph. Milagre em Joaseiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
JANOTTI, Maria de Lourdes M.   O Coronelismo, uma Política de Compromissos. São Paulo, Editora Brasiliense S.A., 1981, p. 73.
LIRA NETO. Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
LOPES, Regis. Caldeirão. Fortaleza: Eduece, 1991.
MACEDO, Joaryvar. Império do bacamarte: uma abordagem sobre o coronelismo no Cariri. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 1990.
MOREL, Edmar. Padre Cícero: o santo de Juazeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. 
PINHEIRO, Irineu. Efemérides do Cariri. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1963.
XAVIER DE OLIVEIRA, Amália. O Padre Cícero que eu conheci. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Editora Ltda., 1969.   

O AUTOR

Daniel Walker é natural da cidade de Juazeiro do Norte, Ceará, onde nasceu em 6 de setembro de 1947. É formado em História Natural pela Faculdade de Filosofia do Crato, com Curso de Especialização em História do Brasil pela Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro. Professor Adjunto aposentado da Universidade Regional do Cariri-URCA. Desenvolve também atividade como jornalista com trabalhos publicados pela imprensa juazeirense e de Fortaleza. Em 1995 fundou o jornal eletrônico Juaonline, a vitrine da história de Juazeiro do Norte, rebatizado em 2008 com o nome de www.portaldejuazeiro.com É pesquisador da vida do Padre Cícero e de Juazeiro do Norte sobre quem já publicou os seguintes livros:

e-mail: danielwalker47@gmail.com

BEATA MOCINHA

Durante muito tempo a Beata Joana Tertulina de Jesus foi apresentada como personagem da história de Juazeiro na função de governanta da casa de Padre Cicero. Não era, porém, uma governanta preocupada apenas com a parte doméstica da função, como pode parecer à primeira vista, pois, na verdade, ela desenvolvia também intenso trabalho na administração das finanças do dono da casa. Mas também não era uma simples tesoureira, dessas a quem concerne unicamente a tarefa de receber e pagar dividas.

Os primeiros biógrafos do Padre CÍcero a viam dessa forma, ou seja, como governanta e tesoureira. Ultimamente, entretanto, a Beata Mocinha começa a aparecer com outro brilho. lsto só começou a acontecer depois que os novos historiadores passaram a estudar com mais ênfase o papel desempenhado pelas pessoas que gravitavam em torno do Padre Cicero. Dessas, duas mulheres - Tertulina e Maria de Araújo - passaram a ter biografia própria, despertando grande interesse entre os pesquisadores.

Maria de Araújo, igualmente beata, personagem principal do chamado milagre da hóstia, ocorrido no povoado de Juazeiro em 1889, já adquiriu status de estrela de tema de estudos acadêmicos, como é o caso da dissertação de mestrado de Maria do Carmo Pagan Forti, a qual, com o titulo de Maria de Juazeiro, focaliza a questão do milagre da hóstia tendo a beata como figura central. O estudo, o primeiro nessa linha, está tendo excelente repercussão nos meios culturais brasileiros.

A Beata Mocinha ainda não chegou a tanto, mas, com certeza, logo cedo chegará. Uma prova do interesse em estudar a vida de Joana Tertulina está no livro Cartório como fonte de pesquisa, de Paulo Machado, lançado em 1994, e que tem se caracterizado como uma excelente fonte de pesquisa. Quem lê esta obra percebe que a Beata Mocinha era mais do que governanta ou tesoureira do Padre Cicero. Pelas transações comerciais que ela concretizou e pelo grande volume de recursos que movimentou, pode sem a menor diivida ser qualificada também na categoria de empresaria. Com efeito, ela, de fato, foi empresária do ramo de energia elétrica no Cariri. No livro de Paulo Machado, a página 31, consta que no dia 1º de outubro de 1925 "foi lavrada a Escritura Publica de Contrato de Sociedade que fazem Doutor Audálio Costa e Dona Joana Tertulina de Jesus (Beata Mocinha) com o objetivo de exploração de uma Usina Elétrica para fornecimento de "luz e força" na cidade de Juazeiro". Ela também contribuiu na fundação do matadouro de Juazeiro, na fundação do Orfanato Jesus, Maria, José, foi tesoureira do Apostolado da Oração, afora outras atividades. Quando o Padre Cícero teve de se submeter a juma cirurgia de catarata, foi ela quem pagou a despesa do médico, contraída através de empréstimo feito pelo Padre Cícero que morreu sem poder pagar. Mocinha teve de vender uma casa de sua propriedade para quitar a dívida com um agiota. Esses fatos de certa forma contribuem para tornar mais densa a história dessa personalidade feminina tão importante na vida de Padre Cicero e da cidade de Juazeiro.

Não ha duvida: a Beata Mocinha foi realmente uma mulher de negócios. Uma empresaria. E como tal, foi vitima das oscilações da economia e da esperteza de agiotas; e como geralmente acontece nesse ramo, ganhou e perdeu dinheiro. E lamentavelmente terminou sua vida pobre. Mas foi, depois de Padre Cicero e Dr. Floro, segundo afirmou Amália Xavier de Oliveira no seu livro O Padre Cicero que eu conheci, a pessoa mais poderosa na escala ascensional do poder em Juazeiro. Chegou a ter bastante dinheiro, porém morreu pobre, amparada por Dona Generosa Ferreira Alencar e a família do juiz de direito Dr. Juvêncio Santana, em cujo túmulo foi sepultada. Seu falecimento correu no dia 20 de abril de 1944.

Joana Tertulina de Jesus nasceu em Jaguaribe Mirim, Ceará, em 27 de janeiro de 1864. Chegou a Juazeiro em 1876 acompanhada da professora Naninha e seu marido, João Mota, com quem ficou morando após a morte dos seus pais. Em 1885 numa solenidade presidia pelo Padre Cícero, juntamente com outras moças (entre as quais Maria de Araújo), Joana Tertulina de Jesus recebe o manto de bata e passou a ser chamada de beata Mocinha, desenvolvendo trabalhos religiosos.

Percebendo os traços de sua personalidade, Padre Cícero confiou-lhe a administração da sua casa e mais tarde as suas finanças, acumulando as funções de governanta e tesoureira. Exceto amigos e autoridades, ninguém entrava na casa do Padre Cícero sem autorização de Dona Mocinha, como ela ficou sendo chamada após as novas funções. Em casa, ela usava sempre o hábito de beta, mas quando precisava ir à rua costumava sair de vestido comum. Padre Cícero recebia muitas autoridades em sua casa, sendo visitado até por presidentes do Ceará. Era Mocinha quem cuidava da recepção e acomodação de todos, comandando uma equipe de serviçais.

Joana Tertulina de Jesus faz parte da história do Padre Cícero e da cidade de Juazeiro do Norte.

 

Juazeiro em 1909 – Por Daniel Walker

Quem melhor descreve a vida do povoado de Juazeiro a partir da construção da Capela de Nossa Senhora das Dores é Amália Xavier de Oliveira. Mas para a organização deste capítulo recorremos também a outros autores, como padre Neri Feitosa e padre Azarias Sobreira, pois eles têm também boas informações. Consta que o padre Pedro Ribeiro de Carvalho, primeiro capelão de Juazeiro, era muito zeloso; cuidava da pequenina população do lugarejo, formada principalmente de pessoas do campo, ensinando-lhes a rezar e a trabalhar. Na época invernosa a população entregava-se aos trabalhos agrícolas; homens e mulheres iam para a roça ocupando-se no cultivo do arroz, milho, feijão, mandioca e algodão. Após a colheita, as mulheres ficavam em casa desenvolvendo trabalhos domésticos e fiando algodão para tecer a roupa dos maridos e dos filhos que elas mesmas costuravam, pois não havia máquina. Os homens se dedicavam aos trabalhos da Fazenda, alimentação do gado, solta das rezes nos pastos, ordenha, vaquejada, desmancha de mandioca, caça, pesca, etc. Todos ali aprendiam o Catecismo, rezavam e trabalhavam sob a orientação do padre que não permitia a promiscuidade e fazia tudo para evitar a discórdia entre os habitantes. Foi assim, nesta atmosfera de paz e tranquilidade, que viveram os primeiros habitantes de Juazeiro de 1827 a 1833, quando faleceu o padre Pedro cercado do respeito e amor de todos que o conheceram.
As festas mais concorridas, além das religiosas, eram os casamentos. Eram feitos com grande animação: três dias de festa antes do casamento na casa do pai da noiva ou de outra pessoa que o representasse e três dias na casa da família do noivo, após o casamento; depois destes festejos todos, o noivo tinha o direito de levar a noiva para casa.
Os padres que o substituíram na Capelinha eram também zelosos e piedosos. O povoado ia crescendo; novas casas foram construídas, sempre localizadas em torno da Capela e ao longo das proximidades da margem do rio Salgadinho. Surgiram, então, os primeiros aglomerados: Cacimba do Povo, Rua do Brejo, Feira do Capim, Mercado Velho, Boca das Cobras, Volta, Salgadinho, Mochila, Comboeiro (Malvas).
Com a chegada do Padre Cícero (em 11.04.1872) como capelão e graças a sua dinâmica atuação, já tão difundida nos livros que tratam de sua vida, o pequeno lugarejo sofreu profundas transformações até chegar ao estado em que se encontra hoje. 
O escritor J. G. Dias Sobreira, em seu livro Curiosidades e factos notáveis do Ceará, informa que quando visitou Juazeiro em 1856, o povoado tinha o seguinte aspecto:

O povoado, nesse tempo, compunha-se de umas sessenta casas de taipa, umas cobertas de telhas e outras de palha de carnaúba ou de palmeira. A disposição delas não obedecia à regra natural de arruamento. Logo na entrada do povoado, começavam duas fileiras de casas, sem guardar a eqüidistância, no seu prolongamento. Ao seguir iam elas afastando-se, de modo que, tendo no começo uns vinte metros de largura, terminavam com mais de cem metros  ao chegar à igreja. Não havia  estética nem nexo, naquela formação de arruamento”.     

Porém, em 1909, um documento apresentado à Assembleia Legislativa do Ceará, em apoio ao pedido de autonomia municipal para Juazeiro, encontrado por Ralph della Cava nos Arquivos do Colégio Salesiano, informa que antes de se tornar independente do Crato o povoado de Juazeiro já se encontrava em acelerado ritmo de desenvolvimento, graças à ação do Padre Cícero.  Já possuía uma farmácia, um médico residente, um jornal, várias instituições religiosas, como o Apostolado da Oração, fundado pelo Padre Cícero, um escritório de intercâmbio comercial com a capital e uma instituição civil para cuidar do engrandecimento do lugar.  
A zona rural de Juazeiro possuía 22 engenhos de açúcar empenhados na produção de rapadura e subprodutos alcoólicos e cerca de 60 locais equipados para preparar farinha de mandioca. Além do cultivo de arroz, feijão e milho, Juazeiro já se destacava na produção de borracha de maniçoba e algodão. Foi Padre Cícero quem introduziu a borracha no Cariri, na primeira década do século XX. E graças ao seu empenho, o algodão, cuja cultura havia sido quase totalmente abandonada, reapareceu entre 1908 e 1911. Ele chegou a comprar uma máquina de beneficiamento de algodão, movida a vapor. A borracha e o algodão foram os principais responsáveis pelo intercâmbio econômico de Juazeiro com o comércio exportador das grandes casas comerciais da capital cearense, especialmente com a firma francesa Boris Frères e a companhia brasileira de  Adolfo Barroso.
Mas o crescimento urbano do povoado foi ainda maior do que sua expansão agrícola. O comércio pulsava com a realização de uma feira semanal, realizada aos domingos em frente à Igreja de Nossa Senhora das Dores. Muitos dos comerciantes tinham imigrado para Juazeiro provenientes de pequenas cidades vizinhas e de outros Estados. Mas a atividade econômica principal do povoado provinha de suas indústrias artesanais de onde saíam uma grande e diversificada produção de produtos utilitários e decorativos, além de produtos religiosos. Tudo se desenvolveu tendo em vista atender às demandas de consumo em ascensão e como uma resposta oportuna à incapacidade das limitadas áreas rurais de Juazeiro para absorver os imigrantes nas atividades agrícolas, de imediato após a chegada. Chegando ao povoado, os romeiros, orientados pelo Padre Cícero, trabalhavam na manufatura de vários artigos de uso doméstico confeccionados com matéria-prima local: louças de barro, vasos, panelas, cutelaria, sapatos, objetos de couro, chapéus, esteiras de fibras vegetais, corda, barbante, sacos e outros receptáculos para estocar e expedir gêneros alimentícios. As habilidades manuais do povo e as necessidades do sertão levaram, eventualmente, à fabricação e exportação de instrumentos rurais típicos, tais como, enxadas, pás, facas, punhais, rifles, revólveres, balas e pólvora.
Logo cedo, devido à grande procura de seus produtos, muitos artesãos saíram de suas casas e passaram a produzir em maior escala em oficinas amplas e equipadas de máquinas, localizando-se no centro da cidade para ficarem mais ao alcance dos clientes. Os reflexos do desenvolvimento do povoado estavam bem evidentes nos impostos arrecadados... principalmente para o Crato. Por isso, o desejo de se tornar independente nasceu. 
Segundo o documento apresentado à Assembleia Legislativa provavelmente organizado por Dr. Floro Bartholomeu da Costa, em 1º de  janeiro de 1909:
A povoação de Joaseiro, estado do Ceará, tem na presente data: 18 ruas, 4 travessas, etc., com a população de 15.050 habitantes, como se vê abaixo:
Rua Padre Cícero: 2.000 habitantes,
Rua S. Luzia: 1.538 habitantes,
Rua S. Jose: 1.100 habitantes,
Rua S. Francisco: 1.000 habitantes,
Rua S. Antônio: 557 habitantes,
Rua S. João: 603 habitantes,
Rua de S. Sebastião: 552 habitantes,
Rua de S. Pedro: 227 habitantes,
Rua do Rosário: 578 habitantes,
Rua do Perpétuo Socorro: 523 habitantes,
Rua do Cruzeiro: 540 habitantes,
Rua dos Passos: 1.040 habitantes,
Rua da Conceição: 800 habitantes,
Rua das Malvas: 175 habitantes,
Rua Grande do Salgadinho: 1.136 habitantes,
Rua da Cacimba Nova: 480 habitantes,
Praça da Capella de N. S. das Dores: 734 habitantes,
Praça da Liberdade: 345 habitantes,
Travessa de S. José: 287 habitantes,
Travessa de S. Francisco: 250 habitantes,
Travessa da Conceição: 209 habitantes,
Travessa da Rua Nova: 37 habitantes,
Beco do Cemitério Velho: 30 habitantes.

Na relação de profissionais, comércio e pequena indústria, destacamos:
Oficinas de Sapateiros: 20,
Carpintaria: 35, 
Marcenaria: 5, 
Pedreiros: 40, 
Fogueteiros: 15, 
Funileiros: 7, 
Ferreiros: 8, 
Ourives: 2,
Pintores desenhistas: 2, 
Fundição: 1, 
Barbeiros: 3, 
Alfaiates: 3, 
Alfaiates Modistas: 10, 
Padarias: 2, 
Farmácias: 2,
Lojas (Molhados-Mercadorias): 10, 
Lojas (Fazendas-Miudezas): 10, 
Bodegas (Molhados-Bebidas): 20,
 Armazéns (Géneros Alimentícios): 10, 
Escolas (particulares, sexo feminino): 12, 
Escolas (particulares, sexo masculino): 6, 
Escolas (públicas, sexo feminino): 1, 
Escolas (públicas, sexo masculino): 1, 
Tipografia: 1,
Igrejas: 2 (uma em construção), 
Cemitérios: 2, 
Bolandeiras Algodão: 1, 
Engenho de ferro para cana: 18, 
Idem, madeira: 4, 
Estação telegráfica, Agência do Correio, Coletoria Estadual, Cartório do Registro Civil, e Serviço de iluminação pública.




ENÉAS DUARTE, O POETA DA DOR E DA ALEGRIA
Daniel Walker

INTRODUÇÃO
Enéas Duarte já foi biografado pioneiramente pelo poeta Pedro Bandeira, que publicou em fins de 1977 o livreto "INSPIRAÇÕES DE UM POETA", edição do autor. O presente trabalho não tem intenção de competir ou mesmo fazer algum aditamento ao de Pedro Bandeira; acima disto avulta o objetivo maior de se prestar uma justa homenagem ao Patrono da Cadeira n° 17 do Instituto Cultural do Vale Caririense, que temos a honra de ocupar.
As informações de cunho biográfico que se encontram aqui nos foram prestadas por familiares do homenageado, especialmente sua viúva, dona Mirtes, e o filho mais velho, Enemir. Há, entretanto, alguma coisa, fruto do nosso conhecimento pessoal com ele e informações outras, colhidas junto a seu ciclo de amizade, notadamente no meio radiofônico juazeirense, onde aliás também militamos.
A todos que nos ajudaram, fornecendo os subsídios necessários à feitura desta modesta monografia, nós agradecemos penhorados.

DADOS   BIOGRÁFICOS
Enéas Duarte é caririense de Barbalha, tendo nascido a 26 de janeiro de 1928. É filho do conhecido causídico barbalhense Antônio Duarte Júnior e Ales Ribeiro Duarte. Sua infância foi dividida entre o Cariri e Fortaleza. Inicialmente estudou no Grupo Escolar Joaquim Távora, passando em seguida para o tradicional Colégio dos Maristas da cidade de Missão Velha. Frequentou também uma escola em Garanhuns, no vizinho Estado de Pernambuco, mas encerrou muito cedo sua vida estudantil, não chegando sequer a concluir o antigo curso ginasial.
Abandonando os bancos escolares, onde naturalmente deixou versos de despedida e a esta altura já desgarrado da proteção paterna, passou a viver independentemente, cultivando seus pendores artísticos de poeta popular, com os quais viria mais tarde enriquecer a Literatura de Cordel, tão disseminada por estas bandas do Nordeste.
Autodidata, culto, orador fluente (de voz grave, inconfundível), pacato e humilde em qualquer circunstância, eram algumas das qualidades que faziam de Enéas Duarte uma pessoa agradável.
Trabalhou e viveu como pôde, sem nunca fazer fortuna porque também nunca soube apreçar o real valor de sua grande capacidade intelectual.
Do seu casamento com dona Mirtes Moreira nasceram cinco filhos, sendo dois do sexo masculino (Enemir e Eneilton) e três do sexo feminino (Eneilde, Eneirta e Enaíde), todos, assim como o pai com os nomes começando com a mesma letra, para respeitar um costume ainda hoje usado no interior nordestino.
Morou em vários lugares: Barbalha, Crato, Campina Grande, Recife, Iguatu, Fortaleza, Juazeiro do Norte, uma atitude mais ou menos própria de cigano, embora longe disso estivesse, pois na realidade, essas mudanças de um lugar para outro era apenas o afã de conseguir melhores dias de vida.
A instabilidade econômica, o descuido com a saúde, a boemia, o trabalho estafante e mal remunerado, colocando seu intelecto a serviço do parnaso, do cordel e do rádio, e já por último também a serviço de campanhas políticas, promovendo candidatos e animando comícios, tudo isso viria contribuir de maneira astuciosa, inevitável e rápida para encurtar sua existência entre nós.  E a morte chegou cedo, pegando o nosso poeta desprevenido. Ele faleceu na cidade de Juazeiro do Norte, no dia 9 de dezembro de 1974, aos 46 anos de idade, depois de agonizar por vários dias num leito de dor, vitimado por grave enfermidade hepática que nenhum recurso médico conseguiu conter.
O seu passamento, como era de se esperar, deixou impreenchível lacuna na Literatura de Cordel, ensejando ao cronista Meneses Barbosa escrever este depoimento: "Como quase todos os poetas, morreu jovem, pouco mais de 40 anos, quando esperava ainda dar vasão às grandes cascatas de sua imaginação poética e encher o Cariri das suas respectivas versejações, que vinham com a versatilidade dos caleidoscópios coloridos".

ATIVIDADES E PRODUÇÃO LITERÁRIA
Na infância, Enéas já demonstrava inclinação para a poesia. Se não vejamos: com apenas oito anos de idade, conforme conta dona Mirtes, ele, certa vez, observando o pai sentado numa cadeira de balanço, surpreendeu o velho com esta quadrinha:

Assim como a Terra gira
Sem sair do seu lugar
Esta cadeira balança
Sem nunca poder andar.

De outra feita, tomando banho de mar em Fortaleza, saiu-se com esta :

Na rua dos meus amores
Num, beco pobre, distinto,
Mora Maria das Dores
Dona das dores que eu sinto.

O nascimento do seu primeiro filho fez brotar este verso:
Formoso Enemir,
Pétala nascida na união dos meus desejos
Tu te emanasse da união dos beijos
Que consagrei a tua mãe querida.

Em 1973, quando a Câmara Júnior de Juazeiro do Norte lançou um concurso de quadrinhas de saudação a Pedro Bandeira, então aclamado "Príncipe dos Poetas Populares", Enéas Duarte, concorrendo com milhares de pessoas, arrebatou o primeiro lugar com a quadra seguinte :

Príncipe? Tu és de nascença.
Coroa? Sempre tiveste.
Tu és o galo-campina
Da floresta nordestina.

Era um exímio improvisador. De uma versatilidade incrível. De sua cabeça os versos saíam com uma naturalidade impressionante. Há uma passagem assaz interessante neste particular, contada por seu irmão, advogado Alênio Duarte. Foi assim: certa vez, Enéas Duarte, no momento trajando uma roupa muito feia, encontrou-se com o poeta Elder França, e este atacou em tom de gozação:

Responda-me, oh! pobre vate
Qual foi o alfaiate
Que te aleijou de uma vez.
Incontinenti, Enéas retrucou sem perder a esportiva:

Foi o alfaiate da miséria,
Que pobreza é coisa séria
Foi a miséria quem fez.

E era sempre assim. Sua mente vivia em estado de alerta constante, pronta para responder em linguagem poética a qualquer provocação.
Mas infelizmente a maioria das improvisações de Enéas Duarte está solta no espaço, este arquivo natural da voz, sendo absolutamente impossível se fazer a reconstituição de tudo o que ele disse.
No apogeu de sua vida de boêmio, participou de vários encontros com intelectuais cearenses em pontos pitorescos de Fortaleza, entre os quais a Confeitaria Ritz,  Bar o Luar do Sertão,  Bar as Três Manas,  Clube dos Advogados etc. Nestes encontros, de cachaça e poesia, disputava a preferência dos aplausos dos frequentadores, competindo com Rogaciano Leite, Palhinha, Zelito, Ferreirinha, Grangeiro, dr. Maviniê e outros conhecidos e respeitados "Cobras" da improvisação.
A poesia matuta era, com efeito, uma grande razão de sua existência; mas nem só de verso viveu Enéas Duarte. Ele foi locutor de rádio, laureado em Iguatu como o "Melhor Locutor do Ano", e detém ainda o privilégio de ter introduzido os violeiros na radiofonia cearense, tendo para tanto produzido e apresentado o programa "Luar do Sertão", um campeão de audiência em todas as emissoras onde foi levado ao ar. Na Rádio Uirapuru de Fortaleza escreveu a novela "Confissões de Caboclo", irradiada diariamente por aquela estação. Também foi jornalista, cronista, teatrólogo, afora as atividades desenvolvidas como funcionário da Procuradoria do Município de Fortaleza. E foi ainda operoso líder comunitário do Bairro Carlito Pamplona em Fortaleza e das Casas Populares em Juazeiro do Norte, onde, aliás, existe   uma rua com o seu nome, iniciativa do Vereador Eliseu Damasceno, representando o reconhecimento da população juazeirense.
Nunca foi propriamente um violeiro, embora apreciasse muito as cantorias, esta beleza de espetáculo que o sertão oferece com muita graça e originalidade. Por fim, Enéas Duarte participou de campanhas eleitorais, animando comícios para os políticos da terra, um trabalho estafante e pouco rentável, mas do qual não podia fugir, pois já representava um reforço econômico para o sustento da família de sete pessoas. Este seu trabalho de assessoramento aos políticos da terra nos faz lembrar de um fato hilariante, do qual fomos testemunha presencial.
Foi assim:  Era tempo de eleição. Enéas estava apresentando seu famoso programa "Luar  do Sertão" na Rádio Progresso, quando, em dado instante, interrompeu a programação, passando a tecer os maiores elogios ao candidato da sua preferência. Mas falou tanto que, temendo ser mais tarde censurado pelos ouvintes, fez questão de explicar, no microfone, que estava falando daquela maneira sem nenhuma intenção de bajular o político  porquanto não era xeleléu de ninguém. Terminando, fez sinal para Manuel Vicente, o controlista do horário, continuar com o roteiro musical. Entretanto, para azar de Enéas, a música seguinte não era outra senão aquela do saudoso coronel Ludugero, e que começa assim: “Xeleléu, ô xeleléu, o teu lugar tá garantido lá no céu".
Enéas Duarte, o poeta da dor e da alegria, no momento certo escreveu e publicou uma porção de folhetos, resultante de sua imaginação criativa e talento indiscutível. Todavia, negligente, nunca se preocupou em guardar para a posteridade suas obras, a maioria distribuída gratuitamente, razão por que hoje são raras.
Editou entre outros os seguintes folhetos:
Homenagem a Augusto Calheiros (1956)
Vitória Esmagadora da Seleção Brasileira (1970)
O Caçador Glorioso Pega o Leão na Virada (1971)
Humberto Bezerra e César Cais: Esperanças do Ceará (1971)
Vitória do Futebol Caririense (1972)
A Nossa Homenagem Póstuma ao Tenor José Brasileiro (1973)
O Testamento de Judas (?)

Merecem destaque também algumas poesias avulsas como "Confronto" (em homenagem ao irmão Alênio), "Sereia Humana" (dedicada à esposa Mirtes), "Saudade" e a poesia matuta "Cabocla do Pajeú” que transcrevemos abaixo como arremate deste nosso trabalho:

CABOCLA DO PAJEÚ

Cabocla do Pajeú
Eu venho de preguntar:
Pru que te requebras assim
Jogando os quadri  pra mim
In tempo de arrebentar?

E meus óio, coitadim,
Nessas ondas merguiou...
Ficou lá dentro afogado
E meu corpo arrepiado
Sente u'a ternura, um calo.

Dixero que um iscurtô
Foi quem fez esses quadri...
Fez com barro sertanejo,
Assim cumia quem faz queijo
Ou doce de buriti.

Alisou bem alisado
De um lado e de outro lado
Adispois arredondou.
E um jovem da Paraíba
Passou uma prana pru riba
E com coidado ajeitou...

Teus quadri é mais redondo
Do que a bola da lua...
É duas ondas do mar
Sempre a se rebolar
No mar revorto da rua.

Teu rebolado é de mais
Mexe com as pernas da gente
O home fica maluco,
Sente n'arma um vuco-vuco
E u'a picada de serpente.

S'eu pudesse, ó caboquinha
Os teus quadri arrancar
Eu guardava bem guardado
Num baú arreseivado
Pru mode ninguém tocar.

Teus quadri são travesseiro
Que eu devera possuí...
P'reu agarrar bem agarrado
Dá um tapa nos danado
E um biliscão de tini...

NAIR SILVA, A INTELECTUAL
Daniel Walker

Somente a partir de 1975, quando ingressei no Instituto Cultura! do Vale Caririense, conheci a Nair Silva poetisa e escritora, a Nair Silva intelectual. Durante o período em que estive como sócio daquela instituição (até 1991), imaginava que sua atividade cultural ou intelectual era muito modesta, no que diz respeito à produção. E havia uma razão óbvia para tal: até ali só conhecia duas produções suas. Um poema matuto intitulado O sertão cuma é qui é  e um texto em prosa sobre folclore, ambos publicados no Boletim do ICVC.
Eu ouvira falar, antes mesmo de entrar para o ICVC, que ela gostava de escrever poemas matutos. Entretanto, só recentemente, após a sua morte, por intermédio de José Nildo, seu filho adotivo, tive acesso a todos os seus escritos em verso, e qual não foi a minha surpresa ao constatar o quanto foi fecunda a sua produção no campo da poesia.
0 saudoso amigo Joaryvar Macedo me disse certa vez que a pior desgraça que podia acontecer a um escritor era ele escrever e não publicar. Pois bem, a nossa saudosa Nair Silva corria esse risco. Esta sua coletânea de poemas, engavetada durante algum tempo até ser resgatada e editada por Nildo, perpetuará o nome de Nair Silva no mundo intelectual caririense, e isto constitui sem dúvida motivo de alegria para todos nós que lutamos em prol do desenvolvimento cultural desta região.
Nair gostava de ler. Só parou quando a vista a obrigou. Era quem mais requisitava livros da Biblioteca do ICVC. Sempre que eu lançava um livro sobre Padre Cícero ela fazia questão de receber um. Na verdade, como todo bom intelectual gostava de participar de atividades literárias, como simpósios, lançamentos de livros, e principalmente das reuniões do Instituto Cultural do Vale Caririense, às quais nunca faltava, pois disto fui testemunha presenciai.
Tive o privilégio de manusear os originais desta coletânea antes de os mesmos irem para o prelo. Seus poemas são do mesmo estilo do famoso Zé da Luz. Neles Nair se revela como humorista irreverente e é justamente isto que seus versos mostram em primeiro lugar. Mas não falta poesia, pois Nair intelectual é, antes de tudo, Nair poetisa. Para mim, Nair não expressou sua intelectualidade apenas escrevendo, seja em prosa ou em verso, mas também no exercício do magistério e como apresentadora de programa de rádio, atividades em que o intelecto é exercitado.
Depois de conhecer melhor sua produção literária foi fácil concluir que entre produzir texto em prosa e escrever poemas matutos, sua opção era sempre por estes, daí por que vai se notabilizar neste gênero literário.
Com a publicação desta obra póstuma, a Nair Silva intelectual reaparece na seara das letras caririenses como escritora, o que, aliás, se espera de qualquer pessoa tida como tal. E felizmente, a desgraça de que me falou Joaryvar Macedo, não aconteceu com ela, porque Nair Silva, a intelectual, escreveu e seu trabalho foi publicado.

Nair Silva, a primeira comissária de menores de Juazeiro


Esta alagoana de Mata Grande chegou a Juazeiro em 1942 e aqui ficou até morrer, em 30 de novembro de 1997. Numa época em que as mulheres em geral pouco haviam conseguido no meio dos homens ela aceitou o desafio de ser a primeira mulher comissária de menores em nossa cidade. Mas ela será lembrada aqui também por outros feitos marcantes. O fato de ser mulher de poucos re-cursos e vir de fora não a impediu de conquistar projeção social e cultural em Juazeiro do Norte. Viveu muitos anos de sua existência na residência do ex-prefeito Dr. Antônio Conserva Feitosa, de quem foi assessora particular, sendo carinhosamente chamada pela família de Naca. Exerceu a função de professora em vários estabelecimentos de ensino locais, entre os quais Escola Normal Rural, Grupo Escolar Padre Cícero, Ginásio Salesiano e Ginásio Antônio Xavier de Oliveira, lecionando Música e Educação Artística. Como carnavalesca fundou as escolas de samba “Esta Turma é da Coroa” e “Seresteiros do Samba”. Dirigiu a banda cabaçal “Bandinha Chapéu de Couro”. Deve-se a ela a  realização da Seresta em Homenagem ao Padre Cícero, no dia 24 de março, tradição que até hoje se mantém e criação da TUA-Turma Unida e Amiga, entidade formada por vendedores de picolés, balas e engraxates. Nair era também muito religiosa,   tendo pertencido à Pia União, à Ordem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e à Ordem de Nossa Senhora do Carmo.  Como radialista ela apresentou na Rádio Iracema o conhecido programa “Lar Doce Lar”. Pertenceu ao Instituto Cultural do Vale Caririense, ocupando a Cadeira nº 7, cujo Patrono é José Amorim Sobreira e foi uma das fundadoras do Coral do ICVC. Nair prestou relevantes serviços a cidade de Juazeiro do Norte e por esta razão, em sinal de reconhecimento público, a Câmara Municipal lhe outorgou, em 1992,  o título honorífico de Cidadã Juazeirense e em 1998, foi homenageada como Mulher de Destaque. As homenagens foram justas e merecidas. Nair nunca casou, mas adotou muitos “filhos”, alguns dos quais chegaram a cursar faculdade, como o Dr. José Nildo Rodrigues que se formou em Direito.


SAUDAÇÃO AO PADRE MURILO PELA PASSAGEM DO SEU JUBILEU DE PRATA DE ORDENAÇÃO SACERDOTAL – 2 DE NOVEMBRO DE 1982
Daniel Walker

Recebi, com alegria e responsabilidade, o convite da Diretora Valba Gondim para proferir algumas palavras em homenagem ao reverendíssimo  Padre Francisco Murilo de Sá Barreto, que completa neste ano Jubileu de Prata de Ordenação Sacerdotal, homenagem esta que se insere nos festejos alusivos à Semana da Normalista, desta Escola.
Ao aceitar o convite - honroso por sinal - eu, que habitualmente sou avesso a solenidades, o fiz porque, contemporizando a situação, estava aí, a oportunidade rara de contemplar um duplo acontecimento: homenagear, de uma só vez, ao vigário festejado e ao meu amigo padre.
Desse jubileu de vida sacerdotal do Padre Murilo, pelo menos a metade eu conheço de perto e muito bem, pois corresponde exatamente ao tempo de duração de nossa amizade, a qual foi ocasionada pelo amigo comum José Carlos Pimentel, professor desta casa.
Do encontro casual em sua residência, nasceu uma amizade tão grande, tão intensa, tão sincera, que às vezes não sei onde termina o limite que define o amigo que tanto prezo e e o vigário que devo respeitar como seu paroquiano.
Apesar das idades, ele cinquentão, eu trintão, isto nunca constituiu distância ou obstáculo para o nosso melhor entrosamento. Eu não faço nada sem consultá-lo ou, pelo menos, informar-lhe; e tudo que ele faz eu sei. Essa confiança mútua e coisa em desuso no mundo competitivo de hoje, onde amigos se separam por motivos fúteis; onde a concorrência necessária vira disputa sangrenta; onde os valores autênticos são            substituídos pelas nulidades, que triunfam bafejadas por intereses espúrios de quem detêm poder.
Nossa amizade supera  tudo isto, porque nossas personalidades foram construídas pela genética dos nossos pais e não improvisadas pelos fatores ambientais que criam personalidades indefinidas, fictícias, enganadoras. Depois, nenhum de nós ambiciona o inatingível ou tomar o que é do outro. Nossos gostos são comuns, mas cada um tem seu estilo próprio de ajudar sem atrapalhar.
Mas, não e só do meu amigo que devo falar agora, pois, a bem da verdade, ê o vigário hoje festejado que admiro mais. Padre Murilo, minha gente, não é apenas um padre em Juazeiro ele é o Padre de Juazeiro! Sua Paróquia é a mais importante, porquanto é para lá que afluem as romarias que sustentam esta cidade. Sua missão de ministro de Deus não se limita aos misteres religiosos, nem ao recinto da sua igreja. Tirada a batina, ele continua padre, recebendo em sua casa, ora a visita do impertinente paroquiano que exige a celebração de uma missa em horário inoportuno; ora a vítima de um casamento fracassado que procura seu apoio para restaurar o lar desfeito; ora o casal de noivos insensatos que vem apressar um casamento que já houve; ora o turista desconhecido em busca de informações sobre o Padre Cícero; ora o comerciante aflito atrás de reza para o comércio que vai mal; e por fim, os políticos carreiristas, de tendências várias, que anseiam por uma definição sua, efetiva e pública, mas que não sai, porque ele sabe, como ninguém, o alcance dessa responsabilidade, que o cidadão comum pode tomar sem efeitos colaterais, mas que ele, por ser o vigário de Nossa Senhora das Dores, o Vigário do Nordeste, pessoa importante, poderosa e querida, não pode se expor através da uniteralidade.
Por isto, não ê nada fácil ou, pelo menos, nada cômodo, ser um Padre Murilo em Juazeiro. A nossa comunidade, questionadora, imprevisível e às vezes até ingrata, exige mais dele do que dos outros.
Felizmente o meu amigo, o nosso vigário, sabe se conduzir muito bem. Ama a terra que o acolheu; trabalha pela sua gente indistintamente; defende o Padre Cícero, escrevendo artigos em jornais ou incentivando o trabalho dos pesquisadores; educa a juventude; participa de eventos sociais e ainda dribla com esperteza as investidas mal intencionadas dos políticos caçadores de adesão.
Passar pelo mundo fazendo o bem é próprio das almas de eleição. Viver em meio de uma sociedade e conquistar-lhe a estima, a veneração e o respeito é uma felicidade. Foi o que Padre Murilo conseguiu. E não podia ser de outra forma. Dedicado até o sacrifício, não conhece cansaço quando se trata de cumprir sua missão de sacerdote.
Este é o Padre alvo desta homenagem tão justa, cujo mérito, indiscutível e merecido, agora reverenciamos. Propositadamente, deixei de fazer alusão ao seu perfil biográfico, porquanto isto já foi feito dentro da programação anterior. Quis mostrar o Padre Murilo que conheço no dia a dia, como frequentador de sua casa e de sua igreja, sendo portanto testemunha presencial do seu trabalho.
Louvar o trabalho honrado, valorizar o esforço construtivo, não será lisonja, sem dúvida, mas simplesmente reconhecimento das nobres qualidades que exornam a marcante personalidade do homenageado.
E de uma coisa todos fiquem certos: eu juro que é verdade tudo o que disse aqui. Por isto, minha gente, este padre é um barato é merece ser aplaudido de pé.
Muito obrigado.


História da Radiofonia Juazeirense

Este artigo é a Apresentação que escrevi para o livro Surfando nas ondas do rádio, de Luiz Carlos de Lima

Quando a televisão chegou, muita gente acreditou que ela mataria o rádio, pois apresentava um recurso inédito e absolutamente impossível ao rádio − a imagem −, antes em preto e branco e logo depois, em cores. Na verdade, a televisão deu um tiro no rádio; acertou, mas não o matou. Ele reagiu, e embora hoje com raio de penetração mais reduzido, continua no ar. E nos lugares aonde o som e a imagem da televisão não chegam, o rádio ainda impera como rei absoluto.

O rádio faz história no mundo todo. A história do rádio em Juazeiro do Norte é contada neste livro, escrito pelo professor e radialista Luiz Carlos de Lima. É a pessoa indicada para escrevê-lo, por vários motivos: é radialista, é um dos mais atuantes personagens da história da radiofonia juazeirense e tem gabarito intelectual para desenvolver, como de fato desenvolveu, esta empreitada a contento.

Luiz Carlos faz parte do que podemos chamar de segunda geração da Rádio Iracema de Juazeiro, da qual também faço parte, e que se iniciou na década de 60. E somos todos da escola do Mestre Coelho Alves, sem dúvida, o maior ícone da radiofonia caririense, possuidor de uma voz inconfundível, nunca igualada.

Sem querer desmerecer outras épocas, foi certamente na década de 60 que a Rádio Iracema deu o seu mais alto salto de expansão de qualidade. Era uma emissora com grade de programação completa, apta para satisfazer ao gosto mais exigente. No esporte tinha uma equipe digna de fazer bonito em qualquer emissora de rádio do Brasil. E nessa equipe estava uma dupla imbatível formada por Luiz Carlos e José Boaventura, transmitindo partidas de futebol até fora do Estado. No radiojornalismo, as notícias da cidade (modéstia à parte, redigidas por mim) formavam um bloco de destaque, muitas vezes ocupando metade do tempo destinado à edição completa do Grande Jornal Sonoro Iracema. Iderval Pedroso, ouvindo as estações mais potentes do mundo, preparava um noticiário nacional e internacional capaz de deixar os ouvintes atualizados com o que acontecia no Brasil e no mundo. Souza Meneses, com sua crônica diária, imprimia credibilidade ao pensamento oficial da Rádio Iracema sempre focalizando assuntos de real interesse da coletividade. E na linha de musicais, a Iracema tinha uma equipe de apresentadores do tipo “exportação”, daí porque muitos deles migraram para outras emissoras fora da região, tamanho era o seu talento. Luiz Carlos, portanto, viveu os melhores momentos do rádio juazeirense e isso ele conta neste livro, com riqueza de detalhes, para servir de resgate histórico para a posteridade.

Assim como a história de Juazeiro é a própria história de Padre Cícero, também a história do rádio é a própria historia da imprensa local, pois quase todos os jornalistas juazeirenses têm ou tiveram passagem ou foram egressos do radio. No princípio, quando não existia ainda estação de rádio, a imprensa juazeirense iniciada com o jornal O Rebate (1909) teve de formar seu próprio quadro de redatores. Mas depois, com o advento da Rádio Iracema, ou antes disso, com o CRP (Centro Regional de Publicidade), os jornais eram escritos com redatores que já trabalhavam em rádio, como Alceli Sobreira, José Boaventura, Damião Medeiros, Luiz Carlos, Jota Alcides, Wellington Amorim, Geraldo Barbosa, eu e outros. Neste aspecto, a cidade de Juazeiro do Norte tem se caracterizado como sendo uma poderosa plataforma de lançamento de talentos para outras localidades. Daqui, Lourival Marques foi lançado para brilhar no Rio de Janeiro; Jota Alcides, em Brasília; Wilton Bezerra, em Fortaleza; Geraldo Batista, em Campina Grande, afora outros exemplos.

É inegável que o rádio exerce um fascínio extraordinário tanto no locutor como no ouvinte. Ser locutor dá status, principalmente em cidades de pequeno ou médio porte. E os ouvintes ficam felizes quando ouvem seus nomes pronunciados pelos locutores. O rádio também abre portas, dá poder e é um dos grandes formadores de opinião. Por isso é que os políticos gostam tanto de rádio, não como ouvintes, claro, mas como donos. Aliás, o ingresso dessa gente no meio radiofônico terminou sendo um dos grandes responsáveis pelo retrocesso da radiofonia brasileira. Atualmente o número de emissoras nas mãos dos políticos é quase a metade do total das concessões. De modo geral, rádio que tem político como dono tem sua credibilidade sob suspeita porque seus locutores são induzidos a fazer apologia ao patrão, deixando os interesses da coletividade em segundo plano.

Ao tomar a iniciativa de escrever este livro, Luiz Carlos tinha absoluta certeza de que não poderia deixar de traçar um paralelo entre o rádio de ontem e o de hoje, pois viveu as duas épocas, e nelas encontrou nítidas diferenças. Por isso, fez questão de destacar o zelo que o Mestre Coelho Alves imprimia à Rádio Iracema. No tempo de Coelho Alves, locutor tinha de ter voz e saber ler. E era empregado da emissora. Hoje, é diferente. O horário da programação é fatiado entre os próprios locutores, uma prática que traz para a empresa dona da rádio um custo operacional baixo, pois fica livre de muitos encargos sociais, levando-se em conta que locutor que compra horário não precisa ter carteira assinada como empregado. O reflexo desse novo modelo da radiofonia é visível na programação das emissoras, no desempenho dos profissionais, e Luiz Carlos não deixou de mencionar isso neste trabalho.

Outro aspecto digno de registro e que Luiz Carlos também menciona, foi a participação feminina no rádio juazeirense, deste a primeira locutora, por sinal minha prima, Willany Magalhães Almeida, até às revelações da atualidade, cujos nomes são citados pelo autor deste trabalho. Não esqueceu, também, de registrar o impacto na radiofonia juazeirense causado pelo advento das rádios FM, a começar pela liberação do primeiro canal, na origem concedido à Rádio Transcariri (hoje Tempo FM), mas que terminou sendo desdobrado em dois, contemplando também a Rádio Vale FM. Mas isso foi até bom, pois em vez de uma, Juazeiro do Norte ganhou logo duas emissoras, malgrado o fato de serem ambas hoje subordinadas a políticos.

Luiz Carlos dedica boa parte do seu livro para falar do setor esportivo, que é sem dúvida alguma um dos pontos mais fortes na programação de qualquer rádio. O esporte na radiofonia juazeirense é rico em lances históricos, muitos dos quais estão aqui registrados. Luiz Carlos que foi excelente narrador de futebol muda de posição e como historiador conta em seus mínimos detalhes a evolução do esporte na radiofonia juazeirense, destacando nomes de primeira linha, como os de José Boaventura, Wilton Bezerra, Wellington Balbino, Damião Medeiros, Francisco Silva (Foguinho) e tantos outros que não preciso citar, pois ele já o fez. Neste setor o autor fala de cátedra, pois é figura exponencial da radiofonia esportiva juazeirense.

E por fim, nos proporciona momento de hilaridade, ao relembrar gafes cometidas pelos locutores. As gafes citadas por Luiz Carlos é claro que não têm a intenção de denegrir a imagem dos seus autores, pois, afinal de contas, elas foram ao ar proferidas pelos seus próprios autores. 

Termino dizendo que este livro deve ser lido por todos os radialistas e por todas as pessoas que gostam do rádio como veículo de informação ou de entretenimento. Ele tem o mérito de ser o pioneiro na região caririense e a importância maior de ter sido escrito por um autor que foi e é personagem da história do rádio juazeirense.

Lendo este livro, estamos todos surfando nas ondas do rádio, juntos com o autor.

Daniel Walker 





Juazeiro do Norte, um grande centro cultural
Daniel Walker

         Depois da chegada do Centro Cultural do Banco do Nordeste a vida cultural de Juazeiro do Norte cresceu bastante. Mas este crescimento já vinha se consolidando desde 1989 com a inauguração do IPESC-Instituto José Marrocos de Pesquisas e Estudos Sócio-Culturais, da Universidade Regional do Cariri-URCA.
O IPESC pode ser apontado como o grande responsável pela formatação do novo modelo cultural juazeirense, pois de uma só vez contemplou vários setores culturais e para cada um deles forneceu a infraestrutura para avançar. E assim, devidamente estruturados, praticamente todos os setores culturais de Juazeiro experimentaram considerável surto de desenvolvimento. Em termos proporcionais, o maior incremente deu-se na literatura. No passado, até meados da década de 1980, eram poucos os lançamentos de livros neste município. Na verdade, quase todos os livros aqui lançadas eram de autores de fora, porque os autores locais não se sentiam estimulados para escrever livros. Entretanto com a atuação do IPESC, organizando os lançamentos e dando suporte editorial às publicações, cresceu o número de produções lançadas e novos autores locais apareceram e brilharam.
Houve também uma grande diversificação na temática, pois se antes a maioria dos livros publicados era de poemas, a partir de então novos assuntos foram sendo enfocados, como estudos sobre Padre Cícero, livros de contos, trabalhos de pesquisa acadêmica etc., tudo dentro de uma efervescência cultural que fez de Juazeiro do Norte o maior centro de editoração de livros do interior cearense.
A mesma coisa também se observou na Literatura de Cordel, antes restrita a um pequeno e seleto grupo  de autores, e hoje com um grande número de autores, inclusive mulheres. Mas nesse  aspecto há um fato a lamentar: o grande descompasso foi a quase completa desativação da Lira Nordestina  como principal editora de cordel. A maioria dos cordéis publicados em Juazeiro do Norte não está mais naquela famosa editora, e sim em gráficas comerciais que apresentam um trabalho com feições gráficas modernas, porém descaracterizadas, não tendo, portanto, a marca da originalidade que consagrou a Lira Nordestina como a maior e mais importante editora de cordel do Brasil.
Nos tempos atuais nunca se viu tanta atividade cultural nesta cidade. Literatura, música, cinema, teatro, artes plásticas, artesanato, enfim, todos os segmentos do engenho humano, têm hoje em Juazeiro do Norte um grande espaço para expansão proporcionado por três grandes centros culturais que são o BNB, o SESC e a Prefeitura Municipal, esta através do seu Centro Cultural José Brasileiro.
O Centro Cultural Banco do Nordeste inovou na forma de patrocinar, pois enquanto o poder público local pratica o mecenato cultural como se estivesse fazendo favor, o BNB patrocina cultura mediante edital, onde o acesso é incondicional e estendido a todos os pretendentes, desde que se enquadrem nos parâmetros exigidos pelo Centro.
Dessa forma, Juazeiro do Norte que sempre foi tratado como um grande centro de religiosidade popular agora é também um grande pólo de cultura, com abundância de lançamentos de livros, de CD, de cordéis, apresentações de exposições e exibições de peças teatrais E isso é muito bom.




NOSSO MOSTEIRO BENEDITINO

Daniel Walker



A história diz que Padre Cícero pautou sua vida sacerdotal em cima de um binômio que se tornou sua marca registrada: oração e trabalho. Por isso, os juazeirenses aqui nascidos e os romeiros aqui chegados, obedientes aos ensinamentos do Padre Cícero, transformaram esta cidade na capital da fé e do trabalho − uma verdadeira colméia humana! Faz sentido, então, o que disse Monsenhor Murilo: Em Juazeiro, cada casa é uma oficina e cada oficina, um santuário.

Oração e trabalho é também o lema desta congregação religiosa das monjas beneditinas que no dia 24 passado inaugurou seu mosteiro oficialmente em nossa cidade.

A presença da Congregação das Monjas Beneditinas do Brasil em Juazeiro do Norte certamente tem o dedo orientador do Padre Cícero, pois aqui a gente já sabe: nada acontece por acaso, tudo é resultado do magnetismo pessoal do nosso maior benfeitor. Padre Cícero, vivo era o dínamo que impulsionava o desenvolvimento de Juazeiro; morto, é o ímã que atrai os insumos de que a cidade precisa para continuar seu desenvolvimento.

Por isso a comunidade juazeirense está exultando com a presença deste mosteiro e saberá com toda certeza dar o amparo necessário para a sua manutenção. Aqui, as orações de suas monjas serão ouvidas por Deus e as graças delas decorrentes inundarão nossa cidade, que em sinal de gratidão passará a prestigiar sua congregação, seja com apoio moral ou presencial, seja adquirindo os produtos oriundos do trabalho de vocês e que serão vendidos na lojinha, onde  também se encontrarão alfaias litúrgicas diligentemente confeccionadas pelas mãos hábeis das monjas beneditinas. Juazeiro é uma cidade grata, porque foi assim que nos ensinou o Padre Cícero.

As monjas saíram de São Cristóvão, em Sergipe, e vieram para o lugar certo! Este é o lugar! Aqui é o lugar indicado pelo Padre Cícero, onde já estão outras congregações religiosas, todas operantes, satisfeitas, e todas igualmente para aqui atraídas pelo magnetismo dele. Quem vem a Juazeiro pensando encontrar uma cidade, engana-se. Juazeiro é uma nação, a chamada Nação Romeira, onde debaixo da sombra protetora do chapéu do Santo lá do Horto convivem amigavelmente alagoanas, pernambucanos, sergipanos, norte-riograndenses e nós cearenses. Somos, portanto,  todos romeiros. E as irmãs beneditinas também já são romeiras. 

Eu não tenho nenhuma dúvida: O Mosteiro de Nossa Senhora da Vitória, recentemente inaugurado, foi construído com muito carinho pelos pedreiros e pelos engenheiros, está fixado num local privilegiado, de onde se vislumbra, toda tardinha, um pôr-do-sol magnífico e diferente, e por isso será sempre abençoado pelas graças de Deus e o olhar protetor do Padre Cícero.  
O impacto e a magia das romarias
Daniel Walker
15 de setembro. Juazeiro do Norte, o chão sagrado dos nordestinos, parece um formigueiro humano. Um mar de romeiros invade a cidade, peregrinando pelas ruas, ajoelhado-se nas igrejas, fazendo compras e dobrando a população nativa. Neste dia Juazeiro parece um mercado persa. Aqui de tudo se vende. Todos disputam a mesma clientela numa verdadeira exploração da fé. Até os políticos se aproveitam. Ao meio-dia, na Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Padroeira da cidade e a Mãe Protetora de todos, a multidão se posta com indescritível piedade dentro e fora da igreja para ouvir a palavra de Deus proferida pelo pastor do rebanho que culmina sempre, conforme a tradição criada pelo saudoso vigário Monsenhor Murilo, com a singular bênção dos chapéus, o objeto de palha usada na cabeça do autêntico romeiro nordestino.  O espetáculo é majestoso, único no mundo e só existe aqui. Tem  uma beleza plástica impossível de ser descrito em palavras, pois é feito para ser visto e não descrito. À tardinha, quando o sol se põe, deixando uma penumbra de luz de bronze sobre o céu da Nação Romeira, um cordão humano “se arrastando pelo chão” percorre em procissão conduzindo o carro andor da Padroeira pelas ruas da cidade para voltar ao ponto onde tudo começou – a Basílica, o lar da Padroeira do lugar. Ao passar pela Rua São Pedro, o carro andor estaciona para receber as homenagens do comércio sob o pipocar de fogos de artifício e chuva de pétalas de rosa, uma espécie de preâmbulo do outro show que pouco depois irá acontecer quando a santa chegar de volta ao trono. Aí, todos, na mais completa fé cristã reza as orações finais numa piedosa prece de agradecimento. Tendo a Lua como testemunha, o tão aguardado momento chegou e depois é hora de partir, de voltar para casa, um ritual seguido tanto pelos nativos como pelos romeiros. 

Isto é o impacto da romaria!

16 de setembro. A cidade que até ontem estava apinhada de gente de fora já está de volta ao seu estado normal, assim que os primeiros raios do Sol tingem de ouro o céu de Juazeiro, a terra do Padre Cícero. O lixo que inundava as ruas e praças desapareceu. As barracas montadas para expor mercadorias não existem mais. As igrejas estão abertas de novo para receber a sua clientela habitual. A cidade está sem romeiro e parece triste.

Isto é a magia da romaria!

Só Juazeiro é assim.      

Monsenhor Murilo, O Vigário do Nordeste

Daniel Walker


Quando concederam a Monsenhor Murilo de Sá Barreto o título de “Vigário do Nordeste” ninguém estranhou. E havia, certamente, uma razão para esta aceitação geral. É que o epíteto, em toda sua extensão, corresponde integralmente à realidade, pois quem já era o Vigário dos Romeiros só podia ser O Vigário do  Nordeste.

Ele foi durante quase todo o seu longo exercício do sacerdócio o padre que, depois de Padre Cícero, melhor ouviu, entendeu e acolheu o romeiro. Era uma metamorfose incrível: de repente, como num passe de mágica, o padre culto, de discurso vibrante, que impressionava platéias formadas de intelectuais, postava-se diante de uma multidão de romeiros acolhendo-os com ternura fraternal e dirigindo-lhes a palavra através de uma linguagem impregnada de nordestinidade. Entre outras coisas, foi isso que fez dele um ídolo dentro da chamada Nação Romeira, este pedaço de chão árido nordestino onde se encontra a espacialidade dos romeiros da Mãe das Dores e do Padre Cícero. 
Monsenhor Murilo aceitou ser Vigário do Nordeste sabendo que não estava recebendo um título simplesmente, mas uma função, ou mais do que isso - uma missão -, que ele aceitou com humildade, mas bastante honrado e a desempenhou com retidão durante seus quase 50 anos de vida religiosa. 
Tive o privilégio de acompanhar O Vigário do Nordeste pelo Nordeste. Nessas andanças, geralmente num raio de pouco mais de 600 km, percorrendo de carro os Estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Bahia e Sergipe, pude constatar que aonde chegávamos encontrávamos em cada cidade a fisionomia de uma Juazeiro do Norte em miniatura. As igrejas, os devotos, os cânticos, tudo enfim, tinha o rosto religioso de nossa cidade. Claro que isto foi plantado pelo Padre Cícero, mas não há nenhuma dúvida de que foi Monsenhor Murilo quem fez isso florescer e continuar. 
Também pude constatar, num misto de alegria e surpresa, que os romeiros tinham por ele uma admiração que não estava circunscrita apenas ao espaço geográfico da Matriz das Dores em Juazeiro do Norte onde ele era Vigário. Sua fama ultrapassava os limites paroquianos e se estendia por todo o Nordeste, e aonde ele chegava era sempre recebido como celebridade, com direito a abraço, aperto de mão, pedido de autógrafo e pose para foto. Percebi que ele aceitava tudo isso procurando dissimular um encabulamento, embora o rosto corado o denunciasse. 
Como explicar isso? Simples. Os romeiros o estimam muito e a recíproca também é verdadeira porque ele soube tal qual o Padre Cícero penetrar no âmago do coração dos romeiros e entender-lhe as agruras e vibrar com suas alegrias. Ele percebeu, após meticuloso estudo de campo, que os sentimentos dos romeiros são verdadeiramente puros, espontâneos, gestuais, e estão impregnados de autêntica religiosidade, contrariando o que se pensava (ele próprio também pensava), ou seja, que romeiros são movidos a fanatismo religioso. 
Também o estimam porque ele soube, igualmente depois de meticuloso estudo, mostrar à Nação Romeira que o Padre Cícero dos romeiros - o verdadeiro -, era o mesmo dele, ou como ele mesmo me disse: ele via o Padre Cícero como os romeiros lhe ensinaram a ver. 
E foi assim, com este passaporte, que ele passou a ter trânsito livre na Nação Romeira. O Nordeste tem com certeza muitos vigários, mas “O Vigário do Nordeste” é Monsenhor Murilo de Sá Barreto! 


As homenagens a Boaventura

Daniel Walker




Muito justas e merecidas as homenagens prestadas ao radialista e historiador José Boaventura de Sousa, falecido recentemente. Juazeiro do Norte, através do poder público municipal e de instituições privadas, soube honrar à altura a figura do conhecido historiador, meu dileto amigo. 

Boaventura não era juazeirense nato, mas gostava e defendia esta cidade mais do que muitos filhos da terra. Disso eu sou testemunha, pois privei de sua amizade por mais de trinta anos e vi de perto o trabalho que ele desenvolveu em prol desta cidade. Foi um trabalhador incansável, que só parou de trabalhar às vésperas de morrer. 

Para se avaliar o quanto Boaventura foi útil a Juazeiro é preciso entrar no túnel do tempo e recuar à década de sessenta, quando ele iniciou sua vida radiofônica na Rádio Iracema, como locutor-comentarista esportivo. Seguro e correto, rapidamente caiu na preferência dos ouvintes e desportistas em geral, e foi certamente nesta função que ele consolidou as bases de sua indiscutível popularidade. Logo depois eu também cheguei à Rádio Iracema, e com ele apresentei seu programa esportivo diário, levado ao ar depois das 18:30 h. Não foi por muito tempo, pois preferi me dedicar exclusivamente à redação e apresentação do inesquecível Grande Jornal Sonoro Iracema. Mas estávamos juntos na mesma emissora, apenas em departamentos diferentes. E cada um acompanhando o trabalho do outro. 

Boaventura também foi homem de imprensa. Trabalhamos juntos em vários jornais daqui, como por exemplo, Tribuna de Juazeiro, ele sempre escrevendo sobre futebol, e eu, as notícias da cidade. Quando ele ingressou no magistério, lá estava eu, mais uma vez ao seu lado. Por isso conheço e exalto o seu trabalho como educador no Centro Educacional Professor Moreira de Sousa, na Faculdade de Filosofia do Crato e na URCA. Só não fui seu colega na UECE. Mas foi no IPESC, um instituto de pesquisa criado pela URCA, onde estive mais perto dele, dividindo alegria quando conseguíamos êxitos em nossos empreendimentos e decepção quando alguns projetos não vingavam. Ele era o diretor da instituição e eu o homem da execução dos projetos elaborados. Acredito que foi nesta instituição que meu amigo Boaventura atingiu a plenitude do seu trabalho em prol de Juazeiro do Norte. O esporte lhe deu popularidade, mas foi o IPESC quem lhe deu o passaporte da credibilidade acadêmica e do prestígio nos meios sócio-culturais do Cariri e do Estado do Ceará, onde a presença da nossa instituição se fez sentir. Foi naquela instituição que ele exerceu a plenitude de seu trabalho de pesquisador e de historiador, produzindo entre outros trabalhos uma monografia sobre o ensino da famosa Escola Normal (uma referência no assunto) e um texto biográfico do patrono do IPESC, José Marrocos, de quem era profundo admirador. Para Boaventura o IPESC não era apenas um instituto de pesquisa, mas também a bandeira de reivindicações de Juazeiro do Norte e um importante assessor das atividades do Poder Público Municipal. Muitos projetos foram realizados em parceria com a Prefeitura e a Câmara Municipal, e em todos a participação de Boaventura foi altamente valiosa, principalmente no tocante à publicação de livros, cujos recursos era ele quem conseguia junto às classes empresarias e políticas da cidade. E com isso a vida cultural de Juazeiro alcançou seu melhor momento. 

Lamento dizer que Juazeiro é uma cidade de memória curta e bastante acostumada - por injunções político-partidárias -, a jogar no ralo do esquecimento e da ingratidão os nomes de seus benfeitores; porém no caso específico do meu amigo José Boaventura de Sousa a gratidão e o reconhecimento da população e dos poderes públicos chegaram de forma digna, conforme está perfeitamente caracterizado nas muitas homenagens que lhe foram prestadas. Mas ele também foi muito grato à cidade que o acolheu como filho. Afora o trabalho edificante realizado em favor do progresso de Juazeiro, desenvolvido nas instituições por onde passou, ele deixou também outro legado, mas este fincado em estruturas físicas, que é o bonito prédio escolar, hoje sediando cursos da UVA, que ele ajudou a trazer com o irmão Luís, e que tem como homenageado o Papa João Paulo II, o maior homem dos últimos tempos. 

Parabéns, Juazeiro do Norte, por não ter esquecido do meu amigo Boaventura 





História da independência de Juazeiro

Daniel Walker




No Brasil, o processo de emancipação política dos povoados e sua transformação em município é basicamente igual. Geralmente é assim: Em dado momento, a comunidade percebe que o povoado cresceu e é chegada a hora de deixar de pagar impostos ao município-sede, pois o retorno social dos recursos remetidos nem sempre corresponde aos anseios da população. Então, alguém, não necessariamente um líder, se sente no direito de representar a coletividade e convoca a população para desencadear o movimento de independência.

Com o povoado de Juazeiro foi desse mesmo jeito. Porém, a forma de desenvolvimento do processo foi diferente, daí porque a história da independência de Juazeiro é singular.

Em 1907 o povoado estava em franco desenvolvimento e pagando pesados impostos ao Crato. Um cidadão filho da terra, rico fazendeiro, divulgou um boletim no qual convocava a população para uma reunião cívica em que a emancipação do povoado era o principal tema da pauta.

A reunião foi um fiasco! Pouca gente compareceu. Alguém aventou a hipótese de que a população, embora desejosa de ver o povoado livre, estava dividida devido a divergências ideológicas e, por isso, vez por outra se desentendia. Na verdade, a população juazeirense, ontem como hoje, é formada por dois tipos de habitantes: os filhos da terra, chamados nativos, e os adventícios, chamados genericamente de romeiros, pois para aqui vieram atraídos pelas pregações de um padre, líder carismático autêntico, e pela crença num fato que todos acreditam como sendo milagre. Este fato, basicamente, consistiu no sangramento da hóstia na boca de uma beata quando a mesma comungava, além de outros fenômenos igualmente estranhos.

O filho da terra e rico fazendeiro referido acima conseguiu a adesão de dois destemidos adventícios para engrossar as fileiras do movimento: um padre cratense fugido de sua cidade por questões políticas com o prefeito e um médico baiano com habilidade em advocacia, embora não fosse advogado formado, que para aqui veio se oferecer para resolver pendências jurídicas referentes a umas minas de cobre do padre que vivia no lugar, mas estava suspenso das ordens eclesiásticas, o líder carismático já citado.  Por coincidência, os dois forasteiros também eram jornalistas.

Assim, melhor preparado, o grupo resolveu fundar um jornal, cujo objetivo seria servir de ponta-de-lança do movimento de independência do povoado.

Mas, apesar de todo o empenho o empreendimento não crescia da forma desejada. Algumas razões impediam-no: o fazendeiro rico não se dava bem com o prefeito do município-sede e os adventícios chamados romeiros se achavam discriminados pela população nativa.

Era preciso, então, o surgimento de um fato novo, porém forte o suficiente para esquentar os ânimos da população e capaz de deixar todos com os nervos à flor da pele, prontos para fazer valer a reivindicação tão justa.

E, por incrível que pareça, em vez de um apenas, surgiram três. Um atentado de morte contra o médico baiano; uma frase insultuosa ao povo juazeirense proferida no Crato durante uma visita pastoral do bispo auxiliar de Fortaleza, por um padre da comitiva e finalmente, a determinação desastrosa do prefeito cratense que ameaçou de forma ostensiva usar a força policial para receber os impostos atrasados, que os contribuintes resolveram não pagar mais.  A ordem do prefeito era severa: em caso de resistência, bala! 

Pronto, estava criado o ambiente propício para o líder carismático do lugar agir. Ele até então se encontrava receoso, pois era adepto da política da boa vizinhança, e também não queria se indispor com o prefeito cratense, seu amigo, cujo pai havia contribuído de forma bastante efetiva para sua ordenação. E como se não bastasse, era ele próprio um cratense da gema.

A situação era dramática e clamava por uma decisão imediata, pois um conflito armado estava prestes a ocorrer.

 O líder carismático, o padre dos romeiros, estava num dilema: honrar sua naturalidade cratense ou defender a terra que adotou, optando, assim, pela cidadania juazeirense.
Com a frase pronunciada em tom enérgico - “Sou filho do Crato, mas Juazeiro é meu filho” -, o líder carismático desfraldou finalmente a bandeira de independência, e o povoado se tornou livre.
            Esta história narrada desta forma, em rápidas pinceladas, é importante demais para terminar aqui. Precisa, portanto, ser contada com mais detalhes num livro.

Juazeiro antes da independência
Quem melhor descreve a vida do povoado de Juazeiro a partir da construção da Capela de Nossa Senhora das Dores é Amália Xavier de Oliveira. Mas para a organização deste capítulo recorremos também a outros autores, como padre Neri Feitosa e padre Azarias Sobreira, pois eles têm também boas informações. Consta que o padre Pedro, primeiro capelão de Juazeiro, era muito zeloso; cuidava da pequenina população do lugarejo, formada principalmente de pessoas do campo, ensinando-lhes a rezar e a trabalhar. Na época invernosa a população entregava-se aos trabalhos agrícolas; homens e mulheres iam para a roça ocupando-se no cultivo do arroz, milho, feijão, mandioca e algodão. Após a colheita, as mulheres ficavam em casa desenvolvendo trabalhos domésticos e fiando algodão para tecer a roupa dos maridos e dos filhos que elas mesmas costuravam, pois não havia máquina. Os homens se dedicavam aos trabalhos da Fazenda, alimentação do gado, solta das rezes nos pastos, ordenha, vaquejada, desmancha de mandioca, caça, pesca, etc. Todos ali aprendiam o Catecismo, rezavam e trabalhavam sob a orientação do padre que não permitia a promiscuidade e fazia tudo para evitar a discórdia entre os habitantes. Foi assim, nesta atmosfera de paz e tranquilidade, que viveram os primeiros habitantes de Juazeiro de 1827 a 1833, quando faleceu o padre Pedro cercado do respeito e amor de todos que o conheceram.
As festas mais concorridas, além das religiosas, eram os casamentos. Eram feitos com grande animação: três dias de festa antes do casamento na casa do pai da noiva ou de outra pessoa que o representasse e três dias na casa da família do noivo, após o casamento; depois destes festejos todos, o noivo tinha o direito de levar a noiva para casa.
Os padres que o substituíram na Capelinha eram também zelosos e piedosos. O povoado ia crescendo; novas casas foram construídas, sempre localizadas em torno da Capela e ao longo das proximidades da margem do rio Salgadinho. Surgiram, então, os primeiros aglomerados: Cacimba do Povo, Rua do Brejo, Feira do Capim, Mercado Velho, Boca das Cobras, Volta, Salgadinho, Mochila, Comboeiro (Malvas).
Com a chegada do Padre Cícero (em 11.04.1872) como capelão e graças a sua dinâmica atuação, já tão difundida nos livros que tratam de sua vida, o pequeno lugarejo sofreu profundas transformações até chegar ao estado em que se encontra hoje.
O escritor J. G. Dias Sobreira, em seu livro Curiosidades e factos notáveis do Ceará, informa que quando visitou Juazeiro em 1856, o povoado tinha o seguinte aspecto:

O povoado, nesse tempo, compunha-se de umas sessenta casas de taipa, umas cobertas de telhas e outras de palha de carnaúba ou de palmeira. A disposição delas não obedecia à regra natural de arruamento. Logo na entrada do povoado, começavam duas fileiras de casas, sem guardar a eqüidistância, no seu prolongamento. Ao seguir iam elas afastando-se, de modo que, tendo no começo uns vinte metros de largura, terminavam com mais de cem metros  ao chegar à igreja. Não havia  estética nem nexo, naquela formação de arruamento”.    

Porém, em 1909, um documento apresentado à Assembleia Legislativa do Ceará, em apoio ao pedido de autonomia municipal para Juazeiro, encontrado por Ralph della Cava nos Arquivos do Colégio Salesiano, informa que antes de se tornar independente do Crato o povoado de Juazeiro já se encontrava em acelerado ritmo de desenvolvimento, graças à ação do Padre Cícero.  Já possuía uma farmácia, um médico residente, um jornal, várias instituições religiosas, como o Apostolado da Oração, fundado pelo Padre Cícero, um escritório de intercâmbio comercial com a capital e uma instituição civil para cuidar do engrandecimento do lugar. 
A zona rural de Juazeiro possuía 22 engenhos de açúcar empenhados na produção de rapadura e subprodutos alcoólicos e cerca de 60 locais equipados para preparar farinha de mandioca. Além do cultivo de arroz, feijão e milho, Juazeiro já se destacava na produção de borracha de maniçoba e algodão. Foi Padre Cícero quem introduziu a borracha no Cariri, na primeira década do século XX. E graças ao seu empenho, o algodão, cuja cultura havia sido quase totalmente abandonada, reapareceu entre 1908 e 1911. Ele chegou a comprar uma máquina de beneficiamento de algodão, movida a vapor. A borracha e o algodão foram os principais responsáveis pelo intercâmbio econômico de Juazeiro com o comércio exportador das grandes casas comerciais da capital cearense, especialmente com a firma francesa Boris Frères e a companhia brasileira de  Adolfo Barroso.
Mas o crescimento urbano do povoado foi ainda maior do que sua expansão agrícola. A população do povoado era de 15.050 habitantes. A zona urbana compreendia 22 ruas e duas praças públicas iluminadas a querosene. No setor de serviços havia duas padarias, três barbearias, duas farmácias, quinze alfaiatarias, dezoito escolas particulares e duas públicas, uma tipografia, uma estação de telégrafo, uma agência de correios, um tabelião e uma repartição da Coletoria de Impostos do Estado. 
O comércio pulsava com a realização de uma feira semanal, realizada aos domingos em frente à Igreja de Nossa Senhora das Dores. Existiam dez lojas de tecidos e artigos de armarinho, igual número de armazéns e cerca de 30 pequenas mercearias, bares e lojas de miudezas. Muitos dos comerciantes tinham imigrado para Juazeiro provenientes de pequenas cidades vizinhas e de outros Estados. Mas a atividade econômica principal do povoado provinha de suas indústrias artesanais de onde saíam uma grande e diversificada produção de produtos utilitários e decorativos, além de produtos religiosos. Tudo se desenvolveu tendo em vista atender às demandas de consumo em ascensão e como uma resposta oportuna à incapacidade das limitadas áreas rurais de Juazeiro para absorver os imigrantes nas atividades agrícolas, de imediato após a chegada. Chegando ao povoado, os romeiros, orientados pelo Padre Cícero, trabalhavam na manufatura de vários artigos de uso doméstico confeccionados com matéria-prima local: louças de barro, vasos, panelas, cutelaria, sapatos, objetos de couro, chapéus, esteiras de fibras vegetais, corda, barbante, sacos e outros receptáculos para estocar e expedir gêneros alimentícios. As habilidades manuais do povo e as necessidades do sertão levaram, eventualmente, à fabricação e exportação de instrumentos rurais típicos, tais como, enxadas, pás, facas, punhais, rifles, revólveres, balas e pólvora.
Logo cedo, devido à grande procura de seus produtos, muitos artesãos saíram de suas casas e passaram a produzir em maior escala em oficinas amplas e equipadas de máquinas, localizando-se no centro da cidade para ficarem mais ao alcance dos clientes. Naquela época, o lugarejo possuía 40 mestres-de-obras, 8 ferrarias e 7 oficinas de latoeiro, 15 fogueteiros, 20 oficinas de sapateiro, 2 ourivesarias, 35 carpintarias e até mesmo uma fundição que produzia sinos de igreja, relógios de parede e de torre de igreja destinados à exportação no Nordeste.
Os reflexos do desenvolvimento do povoado estavam bem evidentes nos impostos arrecadados... principalmente para o Crato. Por isso, o desejo de se tornar independente nasceu. (Excertos do livro História da independência de Juazeiro, do autor)


Homenagem e agradecimento ao grande líder carismático
Daniel Walker 


Com o afastamento de Dr. Antônio Conserva Feitosa da vida política juazeirense, em 24 de março de 1963,  encerrou-se nesta cidade a linhagem de líderes políticos carismáticos. E nesta privilegiada casta somente duas pessoas triunfaram em Juazeiro do Norte: ele e Padre Cícero Romão Batista.

Desde então, não surgiu mais nenhum nome que reunisse em torno do seu dono as qualidades inerentes àquilo que se pode chamar com muita propriedade de líder político carismático.

O fato de poder ser com muita justiça classificado nessa categoria conferiu a Dr. Feitosa um privilégio por muitos desejado, porém por poucos alcançado. E este privilégio sem dúvida é o marco mais importante de sua biografia política, tanto pelo marco em si como pelo fato de ele ter sido colocado ao lado do político mais carismático da história de Juazeiro do Norte  – o Padre Cícero Romão Batista.

Esta cidade jamais se esquecerá de Dr. Feitosa. Irreverente, ousado, destemido, bom orador e administrador dinâmico, tudo isso emoldura o perfil de sua personalidade política já transportada para as páginas da nossa história.

Ele foi um grande guerreiro na segunda fase da política juazeirense. Porém sua intrepidez despertou logo cedo, precisamente na juventude estudantil em Recife, onde pôde mostrar o magnetismo de sua oratória, a firmeza do seu caráter e a capacidade de sua habilidade política para inverter situações.

Mas a história também o exaltará como o médico humanitarista lotado no antigo Samdu; como o homem social que foi um dos fundadores do Rotary Clube local e vice-presidente do Treze Atlético Juazeirense; como o diretor da Escola Técnica de Comércio  e finalmente como o pai de família extremoso, que deixou um legado formado por uma prole de oito  filhos, 4  homens e  4 mulheres, todos conduzindo no sangue e perpetuando nas sucessivas gerações a marca e a pujança de um DNA vibrante.  

Ele foi respeitado e admirado até pelos seus mais ferrenhos adversários. O líder político Cel. Adauto Bezerra, em inesquecível festa realizada no Memorial Padre Cícero, no momento em que  Dr. Feitosa era homenageado, fez questão de registrar publicamente a importância de Dr. Feitosa como líder político e gestor público  municipal, colocando-o na galeria dos mais importantes e influentes políticos da história desta cidade.

É claro que ninguém tem reconhecimento assim gratuitamente. É preciso ter feito por merecer! E é  por isso que hoje, quando se completam exatos 30 dias da passagem deste líder notável, peço que Juazeiro se poste com muita dignidade para direcionar o foco de sua gratidão para este homem que deixou uma marca indelével na história política desta cidade, desenvolvendo um modelo de administração austera e de resultados concretos, como raramente se vê hoje.

Finalizando gostaria de informar uma coisa: tomara que Triunfo não entenda isso como sendo um seqüestro, mas Dr. Feitosa é de Juazeiro!



                                                                                                        Daniel Walker


Vida de romaria
Daniel Walker

“Romeiro de verdade vive na fraternidade”. É assim que diz o bendito cantado nas romarias. E de fato é assim que os romeiros vivem. Tanto nos seus locais de origem como em Juazeiro do Norte, seu destino para alimentação da fé, a fraternidade é a marca registrada das romarias.
Viagem longa e geralmente em estradas  malconservadas, calor inclemente dentro de um ônibus ou mesmo num pau-de-arara, nada disso constitui dificuldade para desanimar o romeiro a vir à Terra do Padre Cícero.
A romaria típica tem um ritual específico. Um pessoa idealiza a viagem, convida os participantes e contrata o fretante. De madrugada, num determinado ponto, geralmente uma praça da cidade ou do povoado, ou até mesmo em frente à Igreja, todos se encontram, fazem uma oração e se acomodam no transporte. A viagem começa. Todos têm o rosto radiante de alegria e exprimem isto entoando os benditos que sabem de cor, todos invariavelmente evocando as figuras da Mãe das Dores e do Padre Cícero.
Nas paradas técnicas para refeição, todos descem do transporte e cada um degusta a comida caseira previamente preparada no dia anterior. Isto dura pouco. Reembarcam e   a viagem prossegue. Quando sentem que a Terra da Fé se aproxima, a alegria atinge seu ponto máximo e todos cantam mais alegremente, demonstrando a satisfação de estar chegando ao local tão almejado e que consideram sagrado. Muitos ainda vão direto à Igreja de São Francisco e lá o motorista realiza um ritual de chegada que é tradicional: dá três voltas em redor da estátua de São Francisco ao som de uma buzina estridente. Só então descem ao centro da cidade para se hospedar no rancho cujo acerto foi feito com muita antecedência,  ou ficam lá mesmo nos Franciscanos onde já existem muitas pousadas.
Guardadas as bagagens, vem o momento seguinte e o mais ansiado: o percurso de visitas que constituem o seu Roteiro da Fé, o qual consiste em visitar as igrejas, o Horto e o túmulo do Padre Cícero. Isto é a espacialidade do romeiro e em nenhuma parte do mundo onde há romarias ela é igual a de Juazeiro. É que aqui existem certas particularidades que só podem acontecer com os romeiros do Padre Cícero e da Mãe das Dores. Mesmo quando estes romeiros visitam outros locais de peregrinação, como Canindé, por exemplo, o que ocorre em Juazeiro não se repete lá. O momento das romarias desta cidade é mágico!
Terminado tudo, pagas as promessas, liquidada a conta nos ranchos é hora de empreender a viagem de volta. E  saem cantando: “... Valei-me meu Padrinho Ciço e a Mãe de Deus das Candeias.”
Agora há em todos um misto de alegria e tristeza. Alegria por ter vindo, e tristeza por ter de partir. Mas a tristeza dura pouco, pois já está marcada a viagem de volta e eles então já começam a contar os dias que faltam para o retorno a Terra do Padre /Cícero e das Mãe das Dores.
É assim a vida de romaria. 


Rádio Transcariri FM
 Daniel Walker

Eu e Cícero Antônio Alves
Com a inauguração da Rádio Transcariri FM, no dia 21 de abril de 1984, nós introduzimos no espaço do interior cearense a primeira estação de rádio em freqüência modulada, assinalando, assim, um tento vitorioso e escrevendo uma página na história do rádio juazeirense. Mas  a história da radiofonia FM em nossa cidade começou de fato um pouco antes, com o empresário Raimundo Ferreira, pois foi ele quem primeiro tentou, embora sem lograr êxito, trazer um canal de rádio FM para Juazeiro do Norte. Este registro precisa ser feito por uma questão de fidelidade aos fatos e reconhecimento público a uma tentativa que foi efetivamente feita.
A idéia de trazer a Rádio Transcariri FM (atualmente Rádio Tempo) foi minha e de Cícero Antônio Alves, e surgiu em outubro de 1981, empolgados que estávamos com a penetração em toda a região do Cariri, da recém-inaugurada Rádio Patamuté FM de Cajazeiras (Paraíba). Fomos até Cajazeiras para ver de perto as instalações daquela emissora e voltamos mais empolgados ainda. O passo seguinte foi encontrar companheiros que simpatizassem com a idéia. E foi aí que contamos com a adesão do Mestre Coelho Alves (então aposentado da Rádio Iracema),  do empresário Francisco Silva Lima e de coronel Adauto Bezerra que figurou na sociedade formada representado por seu filho Adauto Junior. Constituída a empresa, veio a parte mais difícil, que era a concessão do canal pelo DENTEL. E foi mais difícil do que esperávamos. Mas felizmente contamos com a ajuda de muitos amigos, dentre os quais o jornalista Jota Alcides, à época residindo em Brasília, pessoa bastante influente nos meios políticos e na imprensa da Capital Federal. O  Jota teve uma influência muito grande nesta empreitada. Também foi muito importante o prestígio político do coronel Adauto Bezerra. Quando o edital de concessão do canal saiu, tivemos uma surpresa desagradável: era preciso concorrer com mais três pretendentes (todos do nosso total desconhecimento, pois penávamos que o canal seria nosso porque fomos nós quem tomamos a iniciativa). Ganhamos o canal com a freqüência de 101,5 MHZ e como um dos concorrentes era também muito forte, conseguiu na mesma oportunidade um outro canal, surgindo pouco tempo depois a Rádio Vale FM de Juazeiro do Norte.
Nunca me saiu da memória o dia em que a rádio foi ao ar em caráter experimental. Nosso técnico, Diniz, conhecido de Silva Lima do tempo da CITELC, deu um verdadeiro show de competência colocando o transmissor em funcionamento no mais rápido espaço de tempo possível.  Foi um sucesso geral, de toda a Região do Cariri e não apenas de Juazeiro choveram mensagens de ouvintes  nos informando sobre a receptividade e a pureza daquele  som, até então inaudível na região caririense. A Rádio Transcariri FM foi ao ar inicialmente com a programação musical produzida totalmente pela Rádio Transamérica de São Paulo, na época o que existia de mais moderno no rádio de freqüência modulada. E foi um sucesso. Somente mais tarde foi que passamos a produzir aqui mesmo a nossa programação.
Tudo ia muito bem, a rádio funcionava sem dívidas, pagava em dia seus funcionários e seus encargos sociais, era a rádio mais ouvida, mas tive de me afastar da empresa para me dedicar exclusivamente ao magistério, pois passei a lecionar na URCA-Universidade Regional do Cariri, em regime integral.  


Beata Maria de Araújo
Daniel Walker
 “Quando dei à beata Maria de Araújo a Sagrada Forma, logo que a depositei na sua boca, imediatamente transformou-se em porção de sangue, que uma parte ela engoliu, servindo-lhe de co­munhão, e outra escorreu pela toalha, caindo algum no chão; eu não esperava e, vexado para continuar as confissões interrompidas, que eram muitas ainda, não prestei atenção e por isso não apreendi o fato na ocasião em que se deu; porém depois que depositei a âmbu­Ia no sacrário, e vou descendo, ela vem entender-se comigo cheia de aflição e vexame de morte, trazendo a toalha dobrada, para que não vissem, e levantava a mão esquerda, onde nas costas havia caí­do um pouco e corria um fio pelo braço. E ela com o temor de tocar com a outra mão naquele sangue, como certa de que era a mesma hóstia, conservava um certo equilíbrio para não gotejar sangue no chão”.
Foi assim que Padre Cícero descreveu para as autoridades eclesiásticas o fato extraordinário ocorrido no dia 1º de março de 1889, no então povoado de Juazeiro, interior do Ceará, o qual mu­daria para sempre a sua vida e a da beata Maria de Araújo.
Inicialmente, vale a pena perguntar: Quem foi essa mulher? - O que ela fez para merecer tanto desprezo e depois tanta atenção dos estudiosos?
A resposta deve ser dada por etapas. Primeiramente, vamos saber quem foi Maria de Araújo.
Ela nasceu no dia 23 de maio de 1863, no então vilarejo  de Juazeiro, conforme declarou quando prestou depoimento perante a Primeira Comissão de In­quérito nomeada pelo bispo D. Joaquim José Vieira para investigar os fatos extraordinários ocorridos em Juazeiro e seu nome completo é Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo, filha legítima de Antônio da Silva Araújo e de Ana Josefa do Sacramento.
Padre Alencar Peixoto descreve a beata Maria de Araújo com tintas picantes, apresentando-a conforme está no seu livro Joazeiro do Cariry, como sendo “um produto do cruzamento de duas raças desprezíveis, dando, portanto, uma hibridez horrível, uma monstruosidade feita mulher”.
Continuando, diz que ela é de “estatura regular, brunduzia, triste, vagarosa, entanguida, essencialmente cachética, porque tem como ascendentes uma série de cachéticos ou tuberculosos. A cabeça, que traz sempre descoberta, tem a configuração de um corredor de boi, escarnado. O cabelo nem é preto nem branco. Os olhos pequenos, e sem um raio sequer de Expressão que lhe ilumine o semblante, mexem-se histericamente nas falas de uma testa estreita e protuberante. O nariz irrompe dentre os olhos, sem base, e levantando-se, a pouco e pouco, alarga-se de asas chatas até os ossos molares, achamboirados, entupidos nas gelhentas boche­chas cavas. Os beiços moles e relaxados deixam a descoberto em um dos cantos da cacóstoma boca, à competência com a pele cor de azeitona em estado de putrefação, denegridos, os dentes lania­nos”. Quanta à hibridez moral, diz ele, ‘é uma alma soberanamente execrável’.
Decerto Padre Peixoto exagerou, pois  ninguém pode ser tão feio assim. É claro que a  beata Maria de Araújo, que muitos a tem como santa, não possui a formosura das santas européias que estamos acostumados a ver nas estampas. Mas também, descrita assim, Maria de Araújo não é gente, é uma figura teratológica, um monstro, uma aberração da natureza, tudo, menos pessoa humana. E aí ela já pode ser apontada como  vítima de discriminação.
Segundo a educadora Maria Assunção Gonçalves, “Maria de Araújo viveu sempre muito pobre. Teve uma infância sofrida. Traba­lhava e rezava muito. Era artesã. Fiava o algodão e fazia bonecas de pano para vender. Ensinava esse ofício a algumas meninas a man­dado de Padre Cícero. À falta de outros serviços, saía com suas co­leguinhas para uma olaria à margem do rio Salgadinho e ali traba­lhava na contagem de tijolos, em troca de alguns vinténs. Como perdeu os pais muito cedo, foi morar, ainda menina, na casa de Padre Cícero, onde per­maneceu até a condenação dos fenômenos chamados de milagres de Juazeiro.
Depois de punida pela Igreja, Maria de Araújo viveu como la­vadeira, engomadeira e doceira, tirando desses trabalhos simples o seu sustento diário, evitando assim implorar a caridade alheia. Mas nunca deixou de receber de Padre Cícero ajuda e atenção.
Ela morreu no dia 17 de janeiro de 1914, quando estava em curso o movimento sedicioso de Juazeiro, ou Revolução de 1914, como é mais conhecida.
Não há dúvida: o fato mais polêmico da vida de Maria de Araújo foi o milagre, ou pretenso milagre, como querem muitos, descrito no começo deste trabalho.
Por causa dele, Maria de Araújo foi vítima, entre outras coisas:
- de preconceito racial e de gênero;
- da intransigência de seu bispo;
- da pena cruel de muitos escritores e historiadores que a difamaram sem antes procederem a um estudo mais aprofundado de sua via.
O bispo D. Joaquim Vieira, que nunca viu a hóstia se transformar em sangue na boca de Maria de Araújo, foi logo dizendo que o sangue além de ser dela, e não de Cristo, era nauseabundo e cor­rupto, e que ela era uma desequilibrada. E como se não bastasse, infligiu-lhe um rosário de martírios: mandou prendê-la - prender mesmo -, na Casa de Caridade do Crato, proibiu-a de falar sobre o assunto milagre e a ridicularizou publicamente.
O milagre foi o maior martírio da vida de Maria de Araújo, exatamente porque não foi considerado como tal pela Igreja. Mas a beata acreditou nele. Morreu acreditando que o sangue que jorrou de sua boca foi realmente o sangue de Jesus Cristo.
Por causa da punição sofrida pelo Padre Cícero, a qual proibia que ele falasse publicamente sobre o milagre, Maria de Araújo tornou-se uma figura praticamente apagada da história de Juazeiro.  Durante muito tempo os livros publicados sobre Padre Cícero lhe davam pouca importância. Mas ultimamente ela passou a ser alvo de estudos mais aprofundados, graças à iniciativa de pioneirismo empreendida pela psicóloga Maria do Carmo Pagan Forti que tem uma dissertação de mestrado publicada sobre ela, intitulado Maria do Juazeiro, a beata do milagre (Editora Anna Blume, São Paulo, 1999)..
O trabalho de Maria do Carmo inovou principalmente quando procurou recuperar o papel político desempenhado por Maria de Araújo em Juazeiro e neste aspecto, diferentemente do que se dizia nas obras publicadas anteriormente, a beata aparece como mulher, deflagrando a disputa pelo poder, deslocando o lugar do poder, apoderando-se do lugar do poder, enfim, uma mulher ativa e atuante e não uma mera protagonista de um milagre desacreditado pela igreja.
Até mesmo a Igreja já mudou um pouco o seu comportamento. Hoje Maria de Araújo tem seu retrato dentro da Reitoria do Socorro foi sepultada e depois exumada, tendo seus restos mortas depois sepultados em local desconhecido. Na mesma Reitoria antes conhecida como Capela do Socorro, graças a uma iniciativa do seu Reitor, Padre Bosco Lima, ela é figura de um bonito vitral que embeleza aquele local sagrado. É como se ela estivesse sendo reabilitada, assim como já vem ocorrendo com o Padre Cícero.
E assim, com o passar dos tempos e por conta da nova ótica de observação desenvolvida pelos estúdios nos grandes centros acadêmicos do País, a Beata Maria de Araújo vai saindo da obscuridade histórica a que esteve relegada por tanto tempo e agora passa a ser o que realmente é: a figura feminina mais importante da história de Juazeiro do Norte.


HOMENAGEM AOS IRMÃOS CORONÉIS  ADAUTO E HUMBERTO BEZERRA PELA PASSAGEM DOS SEUS 80 ANOS

Senhor Presidente, demais autoridades da Mesa,
Minhas Senhoras, Meus Senhores, amigos de Juazeiro:

Quando recebi a incumbência de saudar os Coronéis Adauto e Humberto Bezerra na passagem dos seus 80 anos de existência e recepção da Comenda outorgada pela Câmara Municipal de Juazeiro do Norte,  duas coisas  aconteceram comigo: a primeira, foi a surpresa da indicação -  e me fiz a seguinte pergunta – Por que justamente eu ainda convalescendo de uma cirurgia?
Depois, fui invadido por uma ansiedade devido ao compromisso assumido, pois não é  fácil saudar em uma solenidade oficial como esta, duas pessoas tão importantes, cujas biografias são como elas, praticamente gêmeas, porquanto percorreram os mesmo caminhos como militares, políticos, empresários  e pais de famílias. Portanto, eu precisava descobrir um fato novo para apresentar esta noite.
Exaltar a vida pública deles seria redundância, pois disso a imprensa já cuidou e há registros abundantes. Os outros aspectos de suas vidas também já foram igualmente destacados. Então, tive de cair em campo para encontrar uma coisa realmente inédita, mas  também interessante para eles e para a platéia.
Como venho trabalhando desde algum tempo na pesquisa da história de Juazeiro, percebi que poderia destacar a importância dos dois no contexto histórico juazeirense, pois eles foram de fato personagens de primeira linha na história desta cidade. E é isso que vou fazer com o be-neplácito da platéia que me ouve.
Segundo o escritor Humberto de Campos: “Cada um, ao nascer, traz no coração, ou nas mãos, a história do seu destino”.
Qual seria o destino desses dois homenageados?
Como tudo tem um início, vou começar dizendo como eles nasceram, mas para isso vou usar a descrição feita pela irmã deles, a  Professora Alacoque Bezerra, como está no livro que ela escreveu sobre o pai. Diz ela:
“Estava na casinha das Eufrasinas (nossas moradoras) ansiosa e chorando por ouvir os gemidos da minha mãe, que aguardava a chegada do quinto filho.
Chega meu pai da procissão, durante a qual pediu muito a Deus felicidades para o filho que ia chegar. Vieram dois. Quanta surpresa e alegria duplicada. Quanto amor e enlevo ao redor de uma redinha branca, onde dormiam a menina dos olhos do meu pai: seus gêmeos, dois filhos homens. Parece que tudo parou e ressurgiu uma nova aurora de tons alvissareiros que se iam acentuando, à proporção que os dias passavam.
Para presentear meus pais, Deus os mandou para suprir a carência dos dois primeiros que levara. Como acomodar dois, com roupinhas, cueiros, sapatinhos de lã, que só foram preparados para um? Uma correria grande. Minha tia Lindalva encarregou-se de prover tudo. Como distingui-los? E os nomes?
José Adauto e Francisco Humberto. A identificação fora sim¬ples: uma touquinha branca para Adauto e uma touquinha preta para Humberto, isso até que os traços fisionômicos permitissem uma identificação mais concreta.
Depois, na pequena casa onde nasceram, no Salgadinho, Adauto, já Governa¬dor, mandou colocar uma placa simbólica informando que ali eles nasceram”.
       Agora, relato a procedência. Eles são descendentes do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, logo pertencem ao tronco familiar que iniciou a história do lugar, que mais tarde Padre Cícero colocou no mapa do  Brasil e tem o nome de Juazeiro do Norte.
        A Família Bezerra não só iniciou a história do lugarejo, como também foi quem primeiro lutou pela sua emancipação política do jugo cratense, num movimento idealizado em 1907 pelo Major Joaquim Bezerra de Menezes, depois encampado pelo Padre Cícero com êxito total.
         A entrada dos dois irmãos aniversariantes na história de Juazeiro tem início quando ambos ingressaram na vida política, mas sem disputar cargo, e sim, ajudando na campanha para eleição do candidato a Prefeito de Juazeiro, o parente e amigo José Geraldo da Cruz, em 1954.
Como não eram ainda muito conhecidos no ramo, usaram a estratégia de pedir votos em nome do pai, José Bezerra de Menezes, conceituado político e homem de negócios já bastante conhecido aqui, o qual, por uma infeliz coincidência, tinha morrido naquele mesmo ano, antes de a campanha decolar.
O pai  prometera eleger  José Geraldo, e certamente o faria  se estivesse vivo;  por isso  coube aos dois filhos gêmeos neófitos em política o cumprimento da promessa. Afastaram-se temporariamente do Quartel,  engajaram-se na  campanha e o candidato venceu.
Com essa estréia coroada de êxito, os dois - mais Adauto do que Humberto -, descobriram que tinham o gen da política no sangue. E assim, à carreira militar que seguia brilhante, agregaram a carreira política.
E este ingresso gerou um fato da maior importância para a história política do Município: o fim do embate entre duas lideranças pela  disputa da hegemonia e da consolidação do poder, conduzindo às urnas duas grandes legiões de adeptos conhecidas popularmente por gogós e carrapatos.
O passo seguinte foi mais longo, mais ousado, também vitorioso, e começou com Adauto. Atendendo aos apelos dos amigos do pai, candidatou-se a Deputado Estadual, e uma vez eleito, transformou-se no primeiro filho de Juazeiro a ocupar tal cargo.
Ao se eleger Deputado Estadual, o coronel Adauto escreve mais uma página na história de sua terra. E aqui cabe bem o que disse Oscar Wilde: “Todos sabem fazer história; mas só os grandes é que sabem escrevê-la”.
No dia 15 de março de 1975 ele assume o cargo político mais alto do Estado, o de Governador, e aí escreve outra página na história de sua cidade, pois foi o primeiro e único juazeirense até hoje a ser eleito para este alto cargo.
Como governador ele fez muito pelo Juazeiro. Construiu dezenas de   obras ainda  hoje existentes. Na história da educação juazeirense, por exemplo, seu nome figura como construtor de muitas escolas, entre as quais  a que tem o seu nome, a que tem o nome de sua mãe e a que tem o nome do Presidente Ernesto Geisel, porém sempre conhecida como Polivalente.
Mas na história da educação juazeirense o nome do Coronel Adauto Bezerra tem um realce maior ainda, pois foi ele quem trouxe, em 1976,  a Faculdade de Engenharia Operacional, primeira faculdade de Juazeiro, antes pertencente à Universidade Estadual do Ceará e agora com o nome de Curso de Engenharia de  Produção,  pertencente  à Universidade Regional do Cariri.
Quando estava em pleno mandato de governador uma tragédia tomou conta da cidade: o tradicional Mercado Central, nosso shopping popular,  foi consumido pelas chamas de um incêndio avassalador. O trágico acontecimento causou desalento geral nos feirantes e uma grande baixa na economia do município.
Aí o Coronel Adauto vem em socorro dos aflitos e escreve mais uma página na história juazeirense, construindo a partir das cinzas e em tempo recorde o novo Mercado que continua até hoje.
Na história de Juazeiro ele ainda figura  como Deputado Federal, como superintendente da SUDENE, banqueiro bem sucedido e um dos fundadores da Rádio Progresso AM e da Rádio Transcariri FM, esta a primeira estação de FM de Juazeiro.
Coronel Adauto Bezerra  certamente continuará  fazendo história.
A participação do Coronel Humberto na história de sua terra natal não é menos importante em relação à do seu irmão gêmeo. Como Prefeito de Juazeiro, empossado em 1963, ele iniciou uma nova fase na administração pública juazeirense.
E a partir daí eu já sou testemunha presencial  da sua história, pois estava iniciando minha vida de jornalista e documentei muita coisa nas páginas do jornal O Povo de Fortaleza, do qual era seu Correspondente aqui, e no Grande Jornal Sonoro Iracema, da Rádio Iracema, do qual era o Redator do noticiário local.
Eis o que ele disse ao ser empossado no cargo: “O que desejo, na minha administração que hoje se inicia, é serenidade no trabalho, austeridade de ação e honestidade na arrecadação e na aplicação dos dinheiros públicos”.
Trabalho. Honestidade. Moralidade. Autoridade. Estas palavras tão ouvidas no Quartel foram incorporadas à sua administração com su-cesso absoluto.
Meus amigos, peço permissão para registrar um fato que reputo da maior relevância para este momento. O então Capitão Humberto Bezerra  foi  o primeiro candidato a Prefeito de Juazeiro a ter um Plano de Governo.  Mas inovou também noutro aspecto. Hoje se fala muito em administrar com transparência, mas na verdade isso  não tem nada de no-vo.
O Capitão Humberto Bezerra, quando Prefeito de Juazeiro, já fazia isso. Eu me lembro muito bem, pois estava lá quando ele, religiosamente, todo mês, comparecia ao estúdio da Rádio Iracema para prestar contas de sua administração, fazendo um balanço das atividades realizadas e da aplicação dos recursos arrecadados. Era tudo transparente e a cidade inteira parava para ouvi-lo.

Numa época em que as verbas recebidas pelo Município eram insignificantes, comparadas com as de hoje,  ele fazia verdadeiros milagres, como bem demonstravam as obras  realizadas, resultado de uma  administração honesta, revolucionária, inovadora e realizadora.
Aumentou a arrecadação municipal, como nunca fora visto antes; fez todo mundo pagar imposto predial. Não dispensou de ninguém, de ninguém mesmo, nem dos familiares. No começo, muitos amigos seus reclamaram, mas pagaram. Depois ficaram satisfeitos porque viam o imposto pago convertido em obras para a comunidade.
A história de Juazeiro não pode deixar de registrar seu pioneirismo na expansão dos limites urbanos, pavimentando ruas até então intransitáveis e fazendo com isso desaparecer da lembrança do povo juazeirense uma palavra feia, porém muito usada na época que era o “arisco”. Em Juazeiro, naquele tempo, morar no arisco era uma hu-milhação.
Logo após a chegada da energia de Paulo Afonso, o Capitão Humberto que já havia calçado o arisco agora também o iluminava, e assim cobria de dignidade a população ali residente. Quem escrever a história de Juazeiro não poderá omitir esta outra página brilhante da sua administração.
E a moral dele na hora de fazer cumprir a lei?! Feriado municipal durante o seu governo,  significava comércio fechado, portas baixadas, mesmo, e ninguém ousava desrespeitar.
Com ajuda do Governador Virgílio Távora construiu o magnífico prédio da Prefeitura Municipal, ainda hoje mantendo sua arquitetura inicial. Na época de sua inauguração, com aquela fonte luminosa multicolorida, foi um delírio para quem assistiu. Era o orgulho da cidade.
O Prefeito Humberto Bezerra construiu escolas, abriu estradas vicinais interligando os sítios à sede do município e levou eletrificação ao distrito Padre Cícero, o qual foi pioneiro no recebimento deste benefício em todo Estado do Ceará.

Em sua administração foi inaugurada a Quadra João Cornélio, um aprazível local onde as crianças brincavam no Parque Infantil, os jovens praticavam esportes, e também onde eram realizados shows de artistas renomados e os estudantes participavam de atividades literárias, graças às conhecidas “Promoções HB” idealizadas pelo jovem, meu amigo José Carlos Pimentel, em nome da biblioteca Dr. Possidônio Bem, instalada na mesma Quadra. Juazeiro do Norte experimentava realmente bons momentos.
Depois ele seguiria na carreira política elegendo-se Deputado Federal. Foi também Vice-governador e Secretário de Estado, mas terminou perdendo interesse pela política e passou a exercer somente sua atividade de banqueiro, sendo hoje figura de proa numa instituição bancária nascida em Juazeiro, com a participação ativa do seu pai, e hoje tem  projeção nacional.
Neste ponto, peço licença para citar um fato que me encheu de orgulho de ser juazeirense. Em 2004 estava de férias com minha esposa em Porto Alegre, lá no fim do Brasil,  quando casualmente passando pela Rua Sete de Setembro vi uma agência do BICBANCO. Aquilo me deixou muito feliz por saber que estava diante de um estabelecimento bancário que nasceu em minha cidade. Foi emocionante.  
Mas o encerramento da carreira política do Coronel Humberto não estancou sua presença na história  de Juazeiro. Em 1995, por ocasião do Centenário de Nascimento do seu pai, ele entregou uma das maiores obras assistenciais já realizadas nesta cidade: a Casa do Idoso.
Não é uma obra de político, mas uma obra de iniciativa pessoal dele. Lá ninguém vive desprezado, nem sabe o que é solidão. Quem mora na Casa do Idoso reencontra a dignidade perdida ou adquire a dignidade que nunca teve, porque  lá existe um ambiente de aconchego familiar, de acomodações dignas, higiene incomparável, alimentação farta e boa, tudo isso graças ao trabalho da eficiente equipe coordenada por Irmão Bernardo sob  o olhar sempre atento do patrão que mora em Fortaleza, porém a visita várias vezes por ano. A Casa do Idoso é uma obra que orgulha a nossa cidade e deixa o Coronel Humberto muito feliz.
Eu e o querido e saudoso Padre Murilo, quando a Casa do Idoso estava ainda em construção, íamos lá todos os sábados olhar os serviços. E  recordo que ele cada vez mais ficava admirado do avanço da construção e comentou uma vez comigo: “Essa obra de Humberto vai mexer muito com ele e será a melhor coisa para o Juazeiro”. E é mes-mo, Coronel, pode ter certeza. E nós três sabemos o que Padre Murilo quis dizer quando afirmou que essa obra ia mexer com o senhor.
Estes, meus amigos e conterrâneos, são apenas alguns lances para mostrar o quanto estes dois ilustres aniversariantes e detentores da Medalha Padre Cícero são protagonistas da história de Juazeiro. Mas eles também abriram espaço para que outras pessoas brilhassem e também figurassem na história desta cidade, como algumas que passo a citar.
O saudoso Gumercindo Ferreira Lima poderia ser lembrado como um lojista como tantos que viveram aqui, mas na história de Juazeiro ele será  mais lembrado como o grande Secretário de Obras do Prefeito Humberto Bezerra e Vereador de muitas legislaturas.
O homem era um verdadeiro trator, foi o grande tocador das obras do Capitão Humberto na época. Abria estradas, construía prédios e fazia ponte mais rápido do que o governador atual. Gumercindo Ferreira Lima foi sem dúvida alguma  o melhor ator coadjuvante da administração Humberto Bezerra e tem um lugar reservado na história de Juazeiro, por isso e por muitas outras ações  que desenvolveu de moto-próprio em prol do desenvolvimento de Juazeiro.
Mas há também Dona Sinharinha, sua eficiente Secretária. O Cabo Dídio, homem de fibra, honesto, um grande fiscal. E  seu tesoureiro, Odemar Bastos Rodrigues, este ainda vivo. E Seu Manoel Balbino, que não era Bezerra de Menezes, mas sempre foi considerado como da família.
É... Coronel Humberto e Coronel Adauto,  os senhores lançaram muitos nomes na história de Juazeiro, e como eu conheço a boa índole dos dois, sei que os senhores não se incomodam de terem nascido numa cidade cuja  história guarda uma certa singularidade, diria até esquisitisse, porque é mística -  por ter ainda uma legião de penitentes como os Aves de Jesus; encantada - por ter acreditado em lendas como a das Três noites de escuro ou a da Pedra da batateira -  e engraçada  pois reúne no mesmo espaço geográfico nomes de pessoas do seu gabarito, como militares brilhantes e políticos  de sucesso, de Padre Cícero, o maior ícone da nossa história, afora outros,  mas que, por outro lado, apresenta também nomes de figuras populares, muito queridas de quem as co-nheceram ou delas ouviram falar, alguns dos quais vou declinar para mexer com muitos  saudosistas aqui presentes.
Distinta platéia,  veja bem  como este nosso Juazeiro é uma cidade misteriosa. Juazeiro é um mundo, como disse meu amigo Renato Casimiro, pois o Juazeiro desses dois ilustres coronéis, o meu e o de muitos conterrâneos que estão aqui é o mesmo Juazeiro do exímio carpinteiro Joaquim Gomes de Menezes, que só se torna conhecido quando é transfigurado na sua  identidade de realeza fictícia com o pomposo nome de Príncipe Ribamar da Beira-fresca. Em qualquer outra cidade, Sua alteza Imperial certamente seria tratado como pessoa amalucada, mas como Juazeiro é uma cidade diferente, nosso Príncipe era tratado como tal e participava até de solenidades oficiais.
Lembro-me dele, vistosamente uniformizado com seu traje real,  ao lado do então Prefeito Capitão Humberto e outras autoridades,  durante solenidade cívica, em palanque armado na Praça Padre Cícero, num memorável  desfile de 7 de Setembro. Ninguém o importunava nem se incomodava com a sua presença.
Há outras figuras da mesma categoria, como o conhecido João Re-mexe-bucho, com um saco de treco às costas, fazendo seus aviõezinhos de papel para a meninada. Famílias bondosas, ricas ou de qualquer classe, lhe davam um prato de comida e muitas vezes o recebiam dentro de suas casas, tamanha era a confiança nele depositada.  Quando ele morreu  foi sepultado com dignidade e grande acompanhamento.
Também o inofensivo  Doca, sempre alegre, dedilhando uma musi-quinha na sua inseparável caixa-de-fósforos  na Praça Padre Cícero, diante do olhar admirado dos transeuntes. Esses tipos populares encantaram gerações inteiras.
Mas há também figuras de outra natureza, como o conhecido motorista Pedro Vicente, inventando e contando suas histórias fantásticas, tipo aquela segundo a qual sua mãe teve uma febre tão alta que queimou os punhos da rede... Pedro Vicente cuja biografia estou pesquisando era  um gerador de alegria. Dona Assunção Gonçalves me disse que aprendeu Matemática com ele.
Recordo também a saudosa Amália do Doce, mestre na culinária, um amor de pessoa, simples, dócil,  cujas guloseimas  eram bastante apreciados até pela alta sociedade local, inclusive. Eu soube que ela vendeu  doce para a casa dos Bezerra.
Antônio Patu, dono do Ponto Chic, local muito freqüentado, onde o escritor Raimundo Araújo me disse que viu certa vez  seu Zé Bezerra esbanjando alegria tendo ao colo os dois filhos gêmeos, então cadetes do exército.
Coelho Alves, a voz mais bonita do rádio juazeirense,  o locutor que dava brilho e elegância a qualquer solenidade que cerimoniava.
Professor Elias Rodrigues Sobral com sua escola de datilografia.
Soledade Magalhães, a bondosa enfermeira carinhosamente chamada Dade, a primeira de Juazeiro,  que muitas vezes esteve na casa dos Bezerra tratando da família.
Dona Amália Xavier de Oliveira, a maior diretora da Escola Normal, a primeira do ensino rural fundada no Brasil.
Assunção Gonçalves que completará 90 anos depois de manhã.  Temos também o que se chama hoje de  celebridades, como o ator José Wilker, a modelo e agora atriz Suyane Moreira,  e a mais recente, seu Lunga, uma verdadeira atração turística, o homem mais zangado do mundo segundo o cordelista Abraão Batista.
E os locais, como Beco de Catarina, Feira do Capim, Bar de Lera, Churrascaria Acapulco, Clube dos Doze, Banco dos Velhos, Bosque, Pracinha, Coqueiros de Damiãozinho, Bela Vista, Cine Avenida, chega! É bom parar porque saudade mata. E depois, para resgatar o Juazeiro antigo já existe o jornal eletrônico  Juazeiro do Norte on-line.
Mas ainda preciso fazer um replay.  Coronéis Adauto e Humberto Bezerra, eu não sei se os senhores ainda chegaram a dançar lá, mas no Rádio Clube que seu pai ajudou a fundar, houve festas memoráveis, históricas. Mas houve também uma que foi um verdadeiro escândalo para a época, segundo me contou a amiga Assunção Gonçalves, como teste-munha presencial.
Naquela época, quando as donzelas de Juazeiro queriam casar, viam nos caixeiros-viajantes os melhores partidos. E nas festas eles eram os preferidos para dançar. Então, um dia, uma moça da sociedade teve o seu cabelo levemente beijado e sem nenhuma má intenção por um caixeiro-viajante que estava de passagem pela cidade. A moça entrou em pânico. Foi um deus-nos-acuda.  Chamaram a diretoria do clube! A orquestra parou de tocar e a festa terminou por causa desse beijo dado na época e no lugar errados.
Fatos assim, pessoas e locais  como os que foram citados, Coronel Adauto e Coronel Humberto, geravam os motivos que davam vida e fazia feliz o nosso Juazeiro de outrora.  Mas isso não existe mais. A nossa cidade hoje é outra, completamente diferente, está sem líder, perdeu o primeiro lugar em arrecadação de tributos e por isso não é mais a cidade que mais cresce no Ceará, famoso slogan nunca mais pronunciado pelos locutores da Rádio Iracema.
Todos aqui reconhecem: os senhores sempre foram fiéis às suas origens, nunca deixaram de visitar a sua terra natal, ainda recordam com saudade dos amigos que morreram,  procuram visitar os que estão vivos e ajudam muitas pessoas necessitadas.
Isto se chama gratidão, respeito, reconhecimento, consideração. Mas esse belo exemplo tem poucos seguidores. Muitas pessoas sepultaram seus familiares aqui, e nunca mais voltaram. Outras planejam fazer o mesmo. E chegam pessoas que só vêm para ganhar dinheiro sem darem a mínima importância para a cidade. De nada participam.
Não sei se o que vou dizer vai  mudar alguma coisa, mas meus  amigos, a história desta cidade deveria ser motivo de orgulho para todos que aqui vivem, pois  está repleta de figuras históricas, de benfeitores e de pessoas de valor, os livros de História do Brasil falam dela, todavia muitos juazeirenses não sabem disso,  daí o motivo  por que  o indiferen-tismo e a ingratidão são  tão praticados aqui.
A ingratidão, segundo Charles Duclos,  consiste em esquecer, desconhecer ou reconhecer mal os benefícios recebidos e ela se origina da insensibilidade, do orgulho e do preconceito. Não tenho nenhuma dúvida de que o  modelo político praticado ultimamente aqui, impregnado de uma  desenfreada disputa pelo poder,  ânsia de vencer a qualquer preço, desejo fútil de apagar as marcas deixadas pelas administrações anteriores, falta de amor à terra, pode ser apontado como um dos maiores responsáveis por esta deplorável situação.
Isto precisa mudar. O Juazeiro de uns tempos para cá  está causando saudades nos que viveram no Juazeiro de antigamente, quando todos eram felizes... e sabiam!
Por isso, ao finalizar meu pronunciamento, após parabenizar os ilustres aniversariantes e pedir desculpa pelo desabafo incontido, faço um apelo aos juazeirenses natos e naturalizados, classificados como ingratos: procurem desenvolver a prática sadia da gratidão; conheçam a história do lugar que os acolhem; saibam reconhecer e honrar os nossos verdadeiros valores do passado e do presente, pois é se espelhando no exemplo deles que nossa abençoada cidade, que sempre  resistiu a todo tipo de pressão política, de perseguição e de inveja, poderá recriar novas lideranças, repensar seu destino, reciclar seu modelo político, estabelecer melhor suas prioridades, e assim,  retomar seu crescimento, acelerar seu desenvolvimento, aumentar sua auto-estima e triunfar com a bandeira da vitória desfraldada, como foi em 1911,com a  sua Independência; em 1914, quando foi invadida pelas tropas do governo, e brevemente quando se concretizar a tão sonhada reabilitação eclesial do Padre Cícero,  pois o futuro de Juazeiro tem no passado o seu maior e melhor exemplo.

Muito obrigado.

(Discurso pronunciado pelo Professor Daniel Walker no dia 30 de maio de 2006 no Memorial Padre Cícero em homenagem aos irmãos Coronéis  Adauto e Humberto Bezerra pela passagem dos seus 80 anos)

Um comentário:

  1. Muito interessantes os temas abordados, principalmente sobre o Dr. Feitosa, que era grande amigo de meu pai. Com ele, durante quatro anos, dei plantão no SAMDU, pois trabalhava como telefonista, e ficávamos conversando até altas horas da madrugada, aguardando consultas e chamadas de urgência. Também estive na fazenda dele, em Triúnfo, por duas vezes, de onde voltávamos com o caminhão de meu pai carregado de melancias caianas. Muitas histórias e estórias escutei do médico e do prefeito dos "carrapatos" que sempre deixava os "gogós" a ver navios.
    Tenhos outros relatos sobre Nair e também sobre a antiga praça Padre Cícero, a partir de 1951.
    Abraços. José Rodrigues Filho

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